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PSICOTERAPEUTA ANA CRUZ

“O conhecimento de qualquer tipo causa uma mudança na consciência de onde é possível criar novas realidades." Deepak Chopra
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Alma gêmea ou penada?

Já que o inverno está chegando e bate aquela vontade de dormir de conchinha com alguém, resolvi publicar um texto de um grande colega psicanalista para deixá-los em reflexão neste feriado.

ALMA GÊMEA OU PENADA?

por Olivan Liger*

“É a falta que nos constitui! É constitutiva e estruturante!

Começo por contar como me ocorreu escrever sobre isto. Tenho um paciente que vive à caça da sua alma gêmea. À caça porque ela sempre foge, se esconde, desparece, recusa e nunca se faz presente, embora meu paciente tenha atribuído essa função à uma ex namorada.

Quando escuto falar de alma gêmea, imagino um clone, alguém tão igual na aparência e conteúdo que se funde à sua outra parte para se completar… algo tão abstrato quanto uma alma.

Dirigindo, enquanto pensava nesse paciente, me ocorreu que algumas vezes também estive à caça da alma gêmea. A diferença é que eu nunca assim a chamei, mas não deixava de ser a busca pela outra metade que faltava. Pensei até te­‐la encontrado em algumas situações.

Em setembro de 2010, decidi passar alguns dias em Buenos Aires para descansar. Já tinha estado por lá em Abril do mesmo ano e tinha gostado da cidade, embora fora uma estadia relâmpago, onde tive que me acostumar com algumas malandragens portenhas. Costumo dizer que a primeira viagem não valeu, pois se tratou de um reconhecimento de território, uma análise de ensaio para ver se nos aceitaríamos bem. Outra diferença é que da primeira vez, fui acompanhado de um parente com uma certa dificuldade de convívio, de tal forma que parte do meu tempo estava em manter uma certa harmonia que era por demasiado tênue.

alma gêmea

Mas, em Setembro, duas amigas foram passar somente o final de semana e eu permaneci por mais oito dias na capital portenha. Enquanto estava com as amigas, ficamos num hostel e logo após o retorno delas ao Brasil, transferi-­‐me para um hotel muito bom na avenida Córdoba. Tinha, na época, alguns contatos do facebook e resolvi ligar para alguns deles. Assim conheci uma das minhas almas­‐gêmeas. Noites mágicas com a alma gêmea a tiracolo em restaurantes variados com promessas de completude infinita. Tudo isto envolvido pela poesia do eletrotango, do Gotan, do Bajofondo, Tangheto e especialmente uma canção do Keane, “Hamburg Song”, entre outros. Oito dias que pareciam ter compensado quase cinqüenta anos de vida.

Em dois anos, a alma gêmea se tornou alma penada. O sentido que dou aqui à alma penada refere-­‐se a algo tão abstrato, intocável, mas muito vivo, que assombra e não se permite ser alcançado. Coincidentemente hoje, eu escutava “Hamburg Song” quando pensava no meu paciente e fui me permitindo ser invadido por uma sensação indescritível. Assim fui me dando conta da falta… daquela falta que nunca será recuperada e que tento não olhar para ela, cara a cara. De um espaço absurdamente vazio que por algum tempo foi iludido pela presença da alma gêmea e que pouco a pouco foi reaparecendo no seu vazio intraduzível.

Acho que assim me tornei um psicanalista, pois a falta me moveu a encontrar nos significantes da fala dos meus pacientes, muito dos meus significados. Sublimei em conseqüência da repressão que ressignifica todas as faltas, a cruz do desconsolo da perda do “objeto a”. Mudei o foco na tentativa de não sentir a falta, mas é a falta que me move na busca do significado de uma ampla cadeia de significantes por mim e por outros ditos.

A alma não era gêmea e nem penada. “Y entonces comprendí” que era apenas alguém que em mim, encontrou por um tempo a ilusão de completude narcísica, como nela também encontrei. Depois de toda essa tormenta interna, senti que fui além de grandes momentos da minha análise, pois pude verdadeiramente sentir o que é a falta do “objeto a” na carne e na alma que pena ainda por preencher o espaço vazio.”

Leia este texto na íntegra aqui.

*Olivan Liger é psicanalista, consultor na área de prevenção e reabilitação em dependência química e presidente do Instituto Latino Americano de Psicanálise Contemporânea. Conheça o seu trabalho clicando aqui.

Grande abraço,

Ana Cruz – psicanalista

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