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PSICOTERAPEUTA ANA CRUZ

“O conhecimento de qualquer tipo causa uma mudança na consciência de onde é possível criar novas realidades." Deepak Chopra
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Será que as pessoas querem ser normais?

Somos todos neuróticos, em tese. Graças a Deus, realmente normais são muito poucos. Somos todos neuróticos.

Estreia no próximo dia 23 no canal HBO Brasil (e simultaneamente em 22 países da América Latina) a série nacional “Psi” baseada nas obras do grande psicanalista – membro da Escola Freudiana de Paris e colunista da Folha de São Paulo Contardo Calligaris, que, na verdade, a criou, escreveu e também assinou o roteiro e a produção. A história gira em torno das aventuras de Carlo Antonini (vivido por Emílio de Mello), psicólogo, psiquiatra e psicanalista que tem a vida fora do consultório destrinchada junto com a história de outras personagens que exemplificam diferentes perfis psicológicos, e cada episódio traz à tona questões existenciais e morais do mundo moderno sob a ótica de um psicanalista para quem as patologias mais estranhas são tão naturais quanto à trivialidade. Imperdível!

Contardo Galligaris é italiano nascido em Milão, radicado no Brasil desde os anos 80 e ama trabalhar. Aos 65 anos de idade, passa em média 12 horas diária no seu consultório, lê três livros por semana e não deixa de frequentar cinema, teatro e restaurante. Descreve-se como encrenqueiro, intervencionista, que gosta de se meter em brigas e problemas onde não pediram a sua opinião.

Em entrevista concedida para a Revista da Cultura para promover a série, ele falou a respeito da tal “normalidade humana”.  Abaixo, segue o trecho onde este tema é abordado:

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E o que é ser “normal”?
Pois é… Será que as pessoas querem ser normais? Normais ou não julgadas? Eu acho que o neurótico médio – que somos todos nós – sonha, idealiza o louco. Ele acha que o louco é “o cara”. E sonha em ser perverso. Ou seja, em ser alguém que realmente não teria todos os impedimentos que a neurose nos coloca, ou seja, os registros de culpa, as inibições. O que é uma pessoa normal? Uma pessoa realmente normal é uma que tem um registro de experiência miserável, extremamente pobre. Pode ser que seja relativamente pouco sofrido, mas é também dramaticamente desinteressante. Às vezes, quem pode ser normal são pessoas que têm ou tiveram uma insuficiência cultural-afetiva muito grande. Então, não conseguem… Não é elaborar a experiência no sentido de falar as suas experiências, mas sabe aquela coisa que você atravessa a vida, vê as coisas e isso não lhe evoca nada? Tudo acontece como está acontecendo e isso não me evoca nenhuma lembrança. Normal é quem não tem nada disso. É quem tem uma experiência miserável, no sentido de pobre. Um registro de experiência extremamente pobre.

E essa normalidade é atribuída ao quê?
De certo ponto de vista, aquilo pode ser considerado um tipo de saúde mental. Porque você, sem dúvida, tem um nível de tormento individual, de angústia, muito menor do que o neurótico médio. Mas, geralmente, aquele tipo de normalidade é construída de maneira extremamente sólida e eficiente em cima de um vulcão adormecido.

Pensando dessa maneira, uma neurose é sempre interessante. 
Somos todos neuróticos, em tese. Graças a Deus, realmente normais são muito poucos. Somos todos neuróticos. Mais loucos do que nos imaginamos – loucos, digo psicóticos –, e em certo número, somos todos, enquanto neuróticos, capazes de ser perversos de vez em quando. O problema mais interessante não é o de viver tranquilo, é o de ter uma vida interessante. Isso que é importante. Inclusive, a que uma psicanálise se propõe? Se propõe a tornar a vida de alguém mais interessante. Não garanto que os meus pacientes venham, sei lá, a sofrer menos ou a ter uma vida mais tranquila. Aliás, o que eu espero é que tenham uma vida mais interessante.

Uma das muitas questões discutidas na série, é que ninguém gosta de ser mudado… 

Isso. A gente passa a vida inteira circundado por pessoas que têm o projeto de nos moldar. Na hora, pode até parecer normal, mas é um saco, né?!  E isso continua. Mas na infância e na adolescência é muito mais, inclusive depois, até no trabalho. Você se lembra daquele filme bonito, Mestre dos mares? É uma história de Russell Crowe, que é comandante, e tem esses dois meninos de 13 ou 14 anos que, na verdade, são oficiais a bordo do navio. É um deles que comanda as baterias de bombardeio do navio. Eles são oficiais da Marinha! Um deles perde um braço e fica lá sem braço. Sobrevive. O espectador médio hoje vê aquilo e não entende. Não processa como sendo normal. Você entrava na escola militar de guerra aos 12, 13 anos, fazia os seus cursos, passava, saía. Valeu. Um aprendiz saía de casa aos 7 anos, na França da Idade Média. Se eu era marceneiro, o meu filho se destinava à marcenaria – naquela época, o que se previa era a reprodução; então, aos 7 anos, o meu filho ia aprender a ser marceneiro. Mas não podia aprender comigo, porque eram inteligentes, eles entendiam que não era com os pais que se aprende. Então, eu tinha que mandá-lo para outro marceneiro dentro da confraria, mas não era na mesma cidade. Era 600 km, 700 km… Eu ia rever meu filho dez anos depois, formado. E ninguém morria. Você vai dizer isso para uma mãe hoje?”

“De todos os diagnósticos, a normalidade é o diagnóstico mais grave, porque ela é sem esperança”. Lacan

Leia a entrevista completa neste link: “Mais loucos e perversos do que nos imaginamos”

Mais informações sobre a série neste link: “Psi”

Grande abraço,

Ana Cruz – psicanalista

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