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Ansiedade – o mal do século XXI

Ansiedade – o mal do século XXI

*por Vera Felicidade

Quanto mais se tem, mais se quer.

“O processo da não aceitação – a neurose – cria posicionamentos e imobilização. As frustrações, as impotências, o medo, o pânico de estar no mundo com o outro, são também sintomas desse processo. Viver sem conseguir realizar desejos deixa o ser humano angustiado. E ao estabelecer planos e metas para mudar o que o estigmatiza, ele aumenta sua não aceitação, iniciando assim o processo de ansiedade.

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Cada meta atingida, cada desejo realizado, esvazia. O desejo saciado não satisfaz, pois ele, o desejo, surgiu de uma fuga, de um deslocamento, de uma vivência não presentificada, falta base, falta chão, falta estrutura. É o vazio sob a forma de despersonalização, submissão, sobrevivência, massificação. Tudo isso aparece de várias maneiras no comportamento de quem está vivenciando esse processo e pode surgir como vício, como apego,  compulsão ou  ganância, por exemplo. É o popularmente expresso como: “quanto mais se tem, mais se quer“.

A realização das metas gera a necessidade de mantê-las, criando assim novas metas e insegurança: medo de perder o conseguido e de não mais atingir o que deseja. A ansiedade se estabelece. Este sintoma – a ansiedade – desorganiza a vida psicológica. Novos problemas surgem e com eles a tentativa de aplacá-los: mais amigos, mais apoios, mais resultados, mais sedativos, mais prazer etc. Deste processo, segue-se a imobilização, a depressão, que muitas vezes é uma maneira de fugir da ansiedade, é mais um deslocamento pois a depressão acalma, tira “aquela agonia“. Ela revela e amplia o vazio, o despropósito do existir. Se tudo era meta, se a vida só tinha sentido pelo que podia ser conseguido, depois da repetição de satisfações e insatisfações, a pessoa estaciona na depressão. A ansiedade é um ciclone que deixa escombros; a depressão incapacita, esvazia e desumaniza. Ansiedade e a depressão que geralmente a segue são um só processo.

A angústia foi considerada a doença do séc. XX, mas, na visão do senso-comum e de vários profissionais, tudo tem seu lado bom e seu lado ruim e se descobriu nela um aspecto bom: ela engendra e provoca a criatividade.

A ansiedade é a doença do séc. XXI (alguns afirmam ser a depressão, pensando que ela é diferente da ansiedade). Continuando com a idéia reducionista de que “tudo tem seu lado bom e seu lado ruim“, a ansiedade é boa pois é o dínamo que nos faz agir, que nos desacomoda.

O que se chama de transtorno bipolar pode ser reconhecido nas configurações do processo de ansiedade e sua resultante  a depressão.

Os comprometimentos valorativos de um século dividido, de um século cravado em polaridades: da “Guerra Fria” até as definições de certo e errado, adequado e inadequado, virtuoso e impuro, familiar e devasso etc que pautavam a vida só podiam angustiar, estreitar comprometer a existência humana a padrões alienantes.  No final do séc. XX, muitos desses padrões foram derrubados, muitos muros desapareceram, mas nenhuma unidade, nenhuma integração do humano surgiu, pelo contrário, assistimos infinitas divisões, geradoras de ansiedade, de depressão.

A sociedade atual ampliou a idéia de que é possível conseguir o que se quiser e tudo está ao alcance, de que não existem mais estigmas, não existem diferenças, não existem limites. O grande shopping está aberto, o mercado se amplia. Se nos anos 70 o conflito era entre ser e ter, agora é entre ser e parecer. A divisão atual é basicamente entre o que é e o que parece ser; é o século dos reparos, das próteses, da construção de imagens. Tudo isto serve para alimentar ansiedades e depressões, tanto quanto para vender seus antídotos.”

*Vera Felicidade é psicóloga clínica, psicoterapeuta gestaltista, autora de oito livros sobre gestalt e também colunista do Wall Street International Magazine. Conheça o seu trabalho: http://psicoterapiagestaltista.blogspot.com.br/

Grande abraço,

Ana Cruz – psicanalista

2 Replies to “Ansiedade – o mal do século XXI”

  1. Ana, muito realista […] O grande shopping está aberto, o mercado se amplia. Se nos anos 70 o conflito era entre ser e ter, agora é entre ser e parecer.

    A divisão atual é basicamente entre o que é e o que parece ser; é o século dos reparos, das próteses, da construção de imagens. Tudo isto serve para alimentar ansiedades e depressões, tanto quanto para vender seus antídotos.”

    Diz a lenda… “é preciso acordar”. Abs,

    1. Oi Raquel! Particularmente sou fã do trabalho da Vera. Escolhi este texto dela por abordar com maestria a realidade atual da nossa sociedade. Tu citaste exatamente o ponto que mais me chamou atenção e que resume bem o comportamento do homem contemporâneo, agora o conflito é entre ser e parecer, entre o que se é e o que se parece ser. Mais do que nunca, é preciso acordar mesmo, caso contrário, onde iremos parar? Grande abraço querida!

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