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PSICOTERAPEUTA ANA CRUZ

“O conhecimento de qualquer tipo causa uma mudança na consciência de onde é possível criar novas realidades." Deepak Chopra
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Abuso sexual infantil e a negligência da mãe: parte I

Entrevistei uma mãe que soube do abuso sexual sofrido pela filha e realizado pelo seu companheiro – padrasto da menina, onde ela conta porque não deu bola.

Infelizmente este é um cenário muito comum ao redor do mundo. Uma mulher tem uma filha e o seu companheiro (que não o pai) lá pelas tantas comete abuso sexual com a menina. Um belo dia esta mãe toma conhecimento do fato e simplesmente não dá bola, não acredita. Por que? Como gosto de desafios, confesso, eu queria explorar um lado bem específico deste quadro. Ao invés de teorizar sobre este tema tão difícil e complexo, decidi seguir outro caminho, conversar, ouvir pessoalmente alguém real que tivesse vivido essa situação. Eu queria a mãe.

abuso-sexual-infantil-660x350Durante aproximadamente dois meses fiz contatos com algumas pessoas até o dia que uma amiga minha me disse que conhecia uma mulher que estava disposta a falar numa boa, pois, coincidências ou não, esta mesma mulher era leitora assídua do meu blog (para a minha surpresa). Usarei o pseudônimo Fernanda sob o compromisso de manter o sigilo e a integridade dela. Esta entrevista foi realizada pessoalmente aqui em Porto Alegre e alguns dados foram checados antes de serem publicados.

Agradeço imensamente a Fernanda pelo seu voluntariado nesta entrevista e não menos importante a minha amiga pela indicação. Como decidi publicar a entrevista na íntegra, a dividi em duas por ficar muito extensa. Segue abaixo a primeira parte:

Ana Cruz – Vamos do início. Me fala um pouco de ti.

Fernanda – Bem, eu tenho 39 anos, sou dona de casa, moro aqui em Porto Alegre, mas nasci no interior do estado. Sou a caçula de 7 filhos. Meus pais eram da roça, todos em casa trabalhavam e ajudavam de alguma maneira. Quando as minhas irmãs mais velhas começaram a namorar eu gostei porque elas tinham que me levar junto nas festinhas, não podiam sair sozinhas com eles. Eu aproveitava para dançar bastante, não estava nem aí para elas, meu pai achava que dançar era coisa de adulto e não de uma pirralha de 13 anos como eu. E elas como queriam namorar não falavam nada pro pai. A gente se ajudava digamos assim.

Ana Cruz – Quantos anos tu tinhas quando engravidou? Como conheceu e como foi o relacionamento com o pai da tua filha?

Fernanda – Em uma dessas festas conheci um rapaz que veio dançar comigo. Entre uma música e outra ele me deu um beijo. Dali para frente começamos a nos encontrar com frequência no baile e quase um ano depois começamos a namorar. Escondido, lógico. Mesmo esquema do “pacto do silêncio” com as minhas irmãs. No início ele era um amor de pessoa, carinhoso, educado, divertido, romântico, um querido. Depois de um tempo ele começou com uma certa pressão para transar e eu achava que se eu não fizesse o que ele queria acabaria procurando outra pessoa e eu não queria isso. Enfim, transei. E ele começou a mudar comigo, mais ciumento e mais agressivo, até me bateu. Deu um chilique uma vez no meio da praça, lembro até hoje da vergonha que passei. Aí engravidei quando eu tinha 15 para 16 anos. Meu pai me expulsou de casa e a minha única opção foi morar com ele. Passei o maior inferno da minha vida. Não durou, ele terminou comigo. Fui morar com a minha filha na casa de uns parentes.

Ana Cruz – Como conheceu o seu companheiro?

Fernanda – Arranjei um emprego numa fábrica e ele era meu colega. Almoçávamos juntos no refeitório com frequência. Era simpático e muito respeitador. Ele tem 13 anos a mais do que eu. Um dia me convidou para um sorvete e começamos a namorar. Me encantei quando ele disse que queria uma família porque tudo o que eu mais queria naquele momento era dar uma família para a minha filha, pai e mãe. E queria também mostrar isso para o meu pai porque quando ele me expulsou de casa me disse que homem nenhum jamais iria querer uma mulher desonrada e com filho para criar. Nós casamos, ele assumiu a minha filha e depois de um tempo reatei com o meu pai e a minha mãe, que tinha ficado do seu lado. Ele era um bom marido, fazia faculdade em outra cidade para crescer na fábrica, cuidava da minha filha com carinho.

Ana Cruz – Fala um pouco sobre o teu relacionamento com o teu companheiro, a convivência de vocês três.

Fernanda – Ele sempre foi um homem bom pra gente. Decidiu fazer faculdade para crescer na fábrica e nos dar uma vida melhor, mais confortável. Ele não queria mais filhos e eu também não. Era uma família normal. Eu cuidava da casa e das coisas dele. Saí da fábrica e arranjei um outro emprego de vendedora numa loja porque combinando o salário e a comissão eu ganhava mais. Depois que ele se formou foi promovido para outro setor da fábrica e passou a ter um salário bem melhor, dava para nos sustentar tranquilamente. Então, larguei meu emprego e queria estudar. Nos mudamos e comecei a faculdade de enfermagem e ele passou a reclamar da minha ausência, dizia que eu não tinha mais tempo pra ele, que a minha filha precisava da mãe em casa, que seria melhor e mais saudável pra todos nós. Ele gostava muito dela, eu via isso. Brincava muito com ela, puxava a orelha quando precisava, essas coisas normais. Nem sempre eu estava junto, muitas vezes eles ficavam sozinhos.

 A segunda parte e o final desta entrevista você confere aqui no blog na próxima semana, não perca.

Grande abraço,

Ana Cruz – psicanalista[:]

6 thoughts on “Abuso sexual infantil e a negligência da mãe: parte I

  1. Parece que esse tipo de situação só acontece com a família dos outros não é? e muitas vezes o agressor está sempre dentro de casa. Contar essa história não deve ter sido fácil mas tudo a seu tempo. Desejo muito equilíbrio à todos os envolvidos.

    1. Infelizmente, em boa parte dos casos, o agressor é alguém muito próximo. Posso afirmar que vi muita dor no fundo dos olhos dessa mãe. Lembrando que a negação da realidade, isto é, neste caso não dar bola para o ocorrido, é um dos tantos mecanismos de defesa que o ser humano apresenta diante do sofrimento.

  2. Li o post num grupo do face, por favor, poste a segunda parte por la, eu tenho curiosidade de entender este lado, achei a tua ideia incrível, obrigada 😉

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