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PSICOTERAPEUTA ANA CRUZ

“O conhecimento de qualquer tipo causa uma mudança na consciência de onde é possível criar novas realidades." Deepak Chopra
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Violência doméstica

Para a psicóloga e especialista em violência doméstica Maria Cláudia Goulart, muitas vezes, as sequelas psicológicas da violência são ainda mais graves que seus efeitos físicos.

Presente em todas as classes sociais, abrangendo mulheres das mais diversas idades e todos os perfis de companheiros (marido, namorado, ex, etc) a questão da violência doméstica é algo extremamente grave e, infelizmente, ainda muito recorrente aqui no Brasil. Houve um grande salto a partir da Lei Maria da Penha, mas o caminho a se percorrer ainda é longo.

A psicóloga e especialista em violência doméstica Maria Cláudia Goulart, com experiência na área há mais de 10 anos, concedeu uma entrevista ao jornalista e doutorando em Ciência da Informação Ruleandson de Carmo expondo pontos pertinentes a este cenário. Confira abaixo:

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Ruleandson: quais fatores podem levar à violência doméstica e o que a caracteriza?

Maria Cláudia: Violência doméstica é caracterizada por toda ação ou omissão que prejudique o bem-estar, a integridade física, psicológica ou a liberdade e o direito ao pleno desenvolvimento de um membro da família. Usualmente cometida dentro do ambiente familiar, por qualquer integrante da família que esteja em relação de poder com a pessoa agredida. Inclui também as pessoas que estão exercendo a função de pai ou mãe, mesmo sem laços de sangue. Não é possível delimitar quais fatores podem levar à violência doméstica, é um problema que acomete ambos os sexos, atingem crianças, adolescentes, adultos e idosos. Não costuma obedecer a nível social, econômico, religioso ou cultural específico.

Ruleandson: a casa, o lar, é geralmente o refúgio das pessoas para os vastos problemas que elas enfrentam em outros ambientes. Quais as consequências psicológicas para quem é vítima de violência dentro da própria casa?

Maria Cláudia: Muitas vezes, as sequelas psicológicas da violência são ainda mais graves que seus efeitos físicos. A experiência da violência, destrói a auto estima da mulher, expondo-a a um risco mais elevado de sofrer de distúrbios psíquicos, como depressão, fobia, estresse pós-traumático, tendência ao suicídio e consumo abusivo de álcool e drogas.

Ruleandson: somente as mulheres são vítimas de violência doméstica ou há casos de homens que também são vítimas?

Maria Cláudia: A violência contra as mulheres é diferente da violência interpessoal em geral. Os homens têm maior probabilidade de serem vítimas de pessoas estranhas ou pouco conhecidas, enquanto que as mulheres têm maior probabilidade de serem vítimas de membros de suas próprias famílias ou de seus parceiros íntimos. As pesquisas indicam que o número de mulheres violentadas por homens é muito superior ao número de homens que são violentados por mulheres. Os homens também são vítimas, mas tendem a esconder por vergonha, humilhação.

Ruleandson: há como identificar um companheiro que possa tornar-se violento?

Maria Cláudia: É difícil prever qual companheiro poderá tornar-se violento, porém algumas características prevalecem em agressores. Fatores pessoais do agressor: ter presenciado violência conjugal quando criança; ter sofrido abuso quando criança; pai ausente; consumo de bebidas alcoólicas e/ou drogas. Fatores de risco da relação: conflito conjugal; controle masculino da riqueza e da tomada de decisões na família. Fatores da comunidade: pobreza, desemprego; associação a amigos delinquentes; isolamento das mulheres e famílias. Fatores da sociedade: normas socioculturais que concedem aos homens o controle sobre o comportamento feminino; aceitação da violência como forma de resolução de conflitos; conceito de masculinidade ligado à dominação, honra ou agressão; papéis rígidos para ambos os sexos.

Ruleandson: por qual motivo alguém aceita ser vítima de violência?

Maria Cláudia: As vítimas de violência doméstica alegam medo de represália, perda do suporte financeiro, preocupação com os filhos, dependência emocional e financeira, perda de suporte da família e dos amigos, esperança de que “ele vai mudar um dia” como motivos para suportar a violência sofrida. Outros fatores contribuem para manutenção na relação conflitiva, são eles: repetição de modelo familiar/parental violento; vivências infantis de maus-tratos, negligência, rejeição, abandono e abuso sexual; casamento como forma de fugir da situação familiar de origem, sendo o parceiro e relacionamento idealizados; sintomas depressivos; sentimento de responsabilidade pelo comportamento agressivo do companheiro; ausência de uma rede de apoio eficaz no que se refere à moradia, escola, creche, saúde, atendimento policial e da justiça.

Ruleandson: como se libertar dessa situação?

Maria Cláudia: Para crianças, adolescentes e idosos que são mais vulneráveis, devem buscar ajuda com alguém de sua confiança que não tenha laços de afetividade com o agressor. Já as mulheres ou homens vítimas de violência doméstica devem primeiramente reconhecer-se como vítimas e não como agentes causadoras da violência. Em segundo lugar, procurar ajuda, orientação em centro de atendimentos à vítimas de violência, delegacias especializadas no atendimento à mulher, e programas sociais de apoio às vítimas de violência doméstica, que irão orienta-las e dar suporte para os encaminhamentos necessários. Apesar das dificuldades, muitas mulheres acabam abandonando os parceiros violentos. As mulheres mais jovens são mais propensas a abandonar estes relacionamentos mais cedo. Situações como aumento do nível da agressão, violência afetando os filhos e apoio sóciofamiliar são determinantes na decisão de sair do relacionamento. A mulher entra em um processo de quebra de sua negação, racionalização, culpa e submissão, passando, então, a se identificar com outras pessoas na mesma situação. Nesse período, é comum o abandono e retorno ao relacionamento várias vezes, antes de deixá-lo definitivamente. Infelizmente, mesmo após o término da relação, a violência pode continuar e até aumentar. O maior risco de ser assassinada pelo marido ocorre após a separação.

Ruleandson: os amigos e familiares tem algum papel nesse caso? Como ajudar alguém que sofre com esse problema?

Maria Cláudia: No caso de crianças, adolescentes e idosos, amigos e familiares podem fazer denúncias anônimas ao Conselho Tutelar, Conselho do Idoso ou à Polícia que irão encaminhar as providências caso a caso. Em relação as mulheres ou homens vítimas de violência doméstica, amigos e familiares podem ajudar a vítima a reconhecer-se como vítima, auxiliar na busca por orientação e principalmente dar suporte e apoio.

Ruleandson: para encerrar, há um infeliz ditado que diz que “tapa de amor não dói”. Por que muitas pessoas acham que agressões podem ser provas de amor?

Maria Cláudia: Em muitos casos, o agressor justifica a violência como um descontrole em razão de ciúmes, insegurança. Culturalmente, o ciúme ainda é considerado uma forma de demonstração de amor, afeto, desta forma, justificando que a agressão é uma prova de amor. Nas relações em que um parceiro é submisso ao outro, aquele que exerce o “poder” utiliza de violência para conseguir o que deseja, e numa forma de reprodução da relação familiar, exerce seu poder de forma agressiva, como o “pai que bate porque ama e quer o melhor para seu filho”.

Fonte: blog do Ruleandson do Carmo.

Grande abraço,

Ana Cruz – psicanalista

6 thoughts on “Violência doméstica

  1. Essa ação se repete […] Culturalmente, o ciúme ainda é considerado uma forma de demonstração de amor, afeto, desta forma, justificando que a agressão é uma prova de amor. (Fonte: blog do Ruleandson do Carmo)

    Apenas para refletir:

    Já imaginou se o agressor sofresse a mesma agressão? como ele ou ela reagiria?

    Muitas vezes somos levados à pensar que a solução do problema está na reação: “dente por dente olho por olho” mas sabemos que isso não é o ideal, tão pouco real. Tudo está relacionado às emoções, ambiente, sociedade e visão de um “mundo” com limites.

    Espero que um dia a violência doméstica seja apenas parte da história do passado!

    Excelente tema!

    1. Oi Raquel! Acredito tanto na importância deste tema que lancei hoje um serviço de atendimento diferenciado para vítimas de violência doméstica, dá uma olhada ali no menu! 🙂

      1. Excelente iniciativa!
        Se nós precisamos de ajuda para resolver questões pessoais, imagina uma sociedade de pessoas violentadas? Desejo muito sucesso nesse trabalho!

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