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ANA CRUZ PSICANALISTA

“Tudo flui quando sentimos bem-estar mental. Aprenda que tudo é possível.” Fritz Perls – psicanalista
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Filhas de mães sem amor: 7 feridas comuns

“Durante os anos em que pesquisei e escrevi Mean mothers, eu falei com outras mulheres sobre as nossas experiências em comum. A história de cada mulher é diferente; talvez o que há de comum é a descoberta de que não estamos sozinhas, que não somos as únicas meninas ou mulheres que tiveram mães incapazes de nos amar. Os tabus sobre “desrespeitar” os pais e os mitos da maternidade, que retratam todas as mães como amorosas, só servem para isolar as filhas não amadas. Essa descoberta aumenta a mágoa e as feridas, mas não se resume a isso.

O seguinte catálogo do que pode acontecer com uma filha que cresce sem o amor e o apoio de uma mãe não é uma pesquisa científica; não deve ser generalizado para todos os casos. Novamente, eu não escrevi como psicóloga ou terapeuta, mas como uma companheira de viagem.

Na infância, a criança pega o primeiro vislumbre de si mesma no espelho que é o rosto da mãe. Se a sua mãe for amorosa, o bebê se sentirá seguro e protegido; ele aprende tanto que é amado quanto é amável. Essa sensação de ser amável, digno de afeto e atenção, de ser visto e ouvido, torna-se o alicerce sobre o qual ele construirá as suas mais profundas certezas-de-si, e fornecerá a energia para o seu crescimento.

A filha de uma mãe fria – emocionalmente distante, que não interage com o bebê, ou até mesmo crítica ou cruel – aprende lições diferentes sobre o mundo e sobre si mesma. O principal problema, é claro, é o quão dependente uma criança humana é da mãe para sua nutrição e sobrevivência. O resultado disso é um apego inseguro, caracterizado como “ambivalente” (a criança não sabe se quem vai aparecer é a mamãe boa ou a má) ou “esquiva” (a criança quer o amor de sua mãe, mas tem medo das consequências dessa busca). O apego ambivalente ensina à criança que o mundo dos relacionamentos não é confiável; o apego evitativo configura um terrível conflito entre as necessidades da criança, tanto pelo amor de sua mãe quanto pela proteção contra os abusos físicos ou emocionais dela.

O ponto chave é que a necessidade da criança pelo amor de sua mãe é uma força motriz primordial, e essa necessidade não diminui com a indisponibilidade – coexiste com o terrível e prejudicial entendimento de que a única pessoa que supostamente te amaria sem condições, não o ama. A luta para lidar com isso é poderosa. Ela afeta muitas, se não todas as partes do self – especialmente na área dos relacionamentos.

O trabalho de Cindy Hazan e Philip Shaver (entre outros) mostrou que as experiências da primeira infância foram altamente preditivas sobre os relacionamentos românticos e as amizades feitas na vida adulta. Não vai surpreendê-lo afirmar que as feridas mais comuns são aquelas relacionadas ao self e à área de conexão emocional.

Não devemos olhar para estas feridas para se lamentar ou jogar toda a responsabilidade por quem somos nas costas de nossas mães, mas para nos tornarmos conscientes delas. A consciência é o primeiro passo para a cura de uma criança não-amada. Muitas vezes, nós simplesmente aceitamos esses comportamentos em nós mesmos sem saber o seu ponto de origem.
1. Falta de consistência: A filha não-amada não sabe que é amável ou digna de atenção; ela pode ter crescido se sentindo ignorada ou criticada. A voz da sua mãe continua ecoando na sua cabeça, dizendo que ela não é inteligente, bonita, gentil, amorosa, digna… etc,. Aquela voz materna internalizada continuará a minar suas realizações e talentos, a menos que haja algum tipo de intervenção. Filhas, por vezes, falam sobre o sentimento de que estão “enganando as pessoas” e expressam o medo de serem “descobertas” quando alcançarem o sucesso no mundo.
2. Falta de confiança: “Eu sempre me pergunto”, uma mulher um dia me confessou, “por que alguém iria querer ser meu amigo. Eu não posso evitar de pensar que há algum tipo de interesse oculto”. Estes problemas de confiança emanam do senso de que os relacionamentos são fundamentalmente não-confiáveis, e fluem tanto nas amizades quanto nos relacionamentos amorosos. Como Hazan e Shaver relatam em seus trabalhos, a filha ambivalente necessita de validação constante que a confiança se justifica. Em suas palavras, essas pessoas “experimentam o amor como algo que envolve obsessão, um desejo de reciprocidade e de união, altos e baixos emocionais, atração sexual extrema e ciúme”. A confiança e a incapacidade de estabelecer limites estão intimamente ligados.
3. Dificuldade para impor limites: Muitas filhas, presas entre a necessidade de atenção da mãe e a sua ausência, relatam não conseguir impor limites em seus relacionamentos adultos. Uma boa parte das filhas não-amadas relatam problemas em manter estreitas amizades femininas, que são complicadas devido a questões de confiança (“Como vou saber se ela é realmente minha amiga?”). Não são capazes de dizer “não” (“De alguma forma, sempre acabo sendo um capacho, fazendo muito, e geralmente me acabo me desapontando no final”), ou querem ter um relacionamento tão intenso que a outra pessoa se afasta.
4. Dificuldade para ver o self com precisão: Certa vez uma mulher compartilhou o que aprendeu na terapia: “Quando eu era criança, minha mãe sempre se focava em denunciar os meus defeitos e ignorava minhas realizações. Depois da faculdade, eu tive vários empregos, mas, em cada um deles, meus chefes se queixaram de que eu não estava me esforçando o suficiente para crescer. Foi só então que eu percebi que eu estava me limitando, adotando a visão que a minha mãe tinha sobre mim no mundo. “Grande parte disso tem a ver com tudo o que você ouviu quando criança e internalizou. Essas distorções na forma como vemos a nós mesmos podem se estender para todos os domínios, incluindo a nossa aparência. (Quando eu vasculhei minhas fotos do tempo de adolescência, olhei para aquela menina como a minha mãe, chamando-a de “gorda”. Ela também me chamava de “mal amada”). Outras filhas relataram sentirem-se surpresas quando obtiveram sucesso em alguma coisa, assim como são hesitantes para tentar algo novo, de modo a reduzir a possibilidade de falha. Isto não é apenas uma questão de baixa autoestima, mas algo bem mais profundo.
5. Atitudes escapistas: A falta de confiança ou o medo, por vezes, coloca a filha não-amada em uma posição defensiva, de modo que ela evita se machucar por um mau relacionamento, em vez de se motivar a encontrar um amor estável. Essas mulheres, na superfície, podem agir como se quisessem estar em um relacionamento, mas em um nível mais profundo, menos consciente, o escapismo é o seu motivador. O trabalho de Hazan, Shaver e Bartolomeu confirma isso. Infelizmente, a evitação impede que a filha não-amada encontre o tipo de relação amorosa que ela procura.
6. Ser excessivamente sensível: Uma filha não-amada pode se tornar muito sensível aos insultos, reais ou imaginários. Um comentário aleatório pode carregar o peso de alguma experiência da infância sem ela mesmo estar ciente disso. “Eu tive que me concentrar nas minhas reações”, disse uma mulher, agora na casa dos quarenta anos. “Às vezes, eu confundo o que é dito, como brincadeiras ou outra coisa, e acabo me preocupando até me abalar e perceber que a pessoa realmente não quis dizer nada do que havia imaginado”. Elas tendem a pensar demais e ruminar muito as situações ruins.
7. Replicar o vínculo com a mãe nos relacionamentos: infelizmente, tendemos a ser atraídos pelo que já sabemos – aquelas situações em que, apesar de representarem momentos de infelicidade, não deixam de ser “confortáveis”, por nos serem familiares. Isto, às vezes, tem o efeito de replicar, de maneira não-intencional, a relação maternal. “Eu me casei com a minha mãe, com certeza”, diz uma mulher: “Ele aparentava ser completamente diferente da minha mãe, mas, no final, acabou me tratando da mesma maneira. Como a minha mãe, ele alternava entre a indiferença e a atenção, às vezes fazia críticas horríveis, depois demonstrava alguma forma vaga de apoio”. Ela acabou se divorciando do seu marido e de sua mãe.”

Texto escrito pela renomada escritora Peg Streep, colunista de grandes periódicos da área da psicologia como o Psych Central e o Psychology Today. Tradução e adaptação por Psiconlinews.

Grande abraço,

Ana Cruz – psicanalista

24 thoughts on “Filhas de mães sem amor: 7 feridas comuns

  1. Olá! Hj entendo td o q aconteceu entre minha mãe e eu, pq tenho pesquisado sobre isso. Estou a beira dos 40 e minha mãe com quase 70. Nas idas e vindas do nosso conturbado relacionamento, todas as vezes eu q insisti pra dar certo, mas foram tantas palavras negativas, tanta mágoa, tantas brigas.
    Fazem alguns meses q ñ nos falamos. Mas mesmo sabendo o q ela sente e o q não sente por mim, tem dias q me sinto muito mal por ter decidido escolher a auto defesa d ficar sem nenhum contato com ela. Me culpo por desistir dela principalmente pela idade q ela está. Como posso saber se estou fazendo a coisa certa?

  2. A minha vida está nesse texto, a minha mãe vive em outro país, não somos amigas, ela e a mãe dela fizeram para mim e minha irmã tudo e mais alguma coisa do que está descrito nesse texto..teve abandono, teve privação de bens essenciais,violência fisica ao extremo e psicologioca,Hoje eu tenho 40 anos, e quando a vejo fico nervosa, descontrolada, ela nem precisa abrir a boca. Trocamos algumas palavras frias e vai casa uma para seu lado, ela não me faz falta nenhuma, e eu sei que também não lhe faço falta. Ela destruiu a minha infancia, sonhos, adolescência e talvez a adulta que sou hoje..

    1. Oi Andrea! Te entendo perfeitamente. E posso afirmar que é perfeitamente possível superar tudo isso, se reconstruir e ter uma nova vida. É uma questão de dar o primeiro passo e buscar ajuda profissional. Grande abraço!

  3. Obrigada pelo texto ! Chorei muito ao ler! Pensei em tudo que vivi , e me identifiquei muito. Minha mãe faleceu faz mais de 10 anos mas apesar das terapias e esforço às vezes me pego com a voz dela me criticando ! Creio que superei a maior parte ,as cicatrizes ficaram para eu nunca esquecer !

    Obrigada por compartilhar !

    1. Oi Vânia! Muito nobre da tua parte compartilhar tua história publicamente! Te entendo, certas vezes, há fantasmas que insistem em aparecer, no entanto, acredito no potencial de cada ser humano em não permitir que o passado sabote o presente. Bjs!

  4. Me vi neste texto, hoje estou bem porém vivo com alguns fantasmas ainda, me liberto desta mãe interna cada vez mais!! isso traz paz! Adorei o texto perfeito !

  5. Ana me vi completamente e embora faça muito esforço para ser diferente estou lá, presa aos padrões. Agora esforço-me a ser uma mae amorosa, presente, por vezes penso q era uma bruxa e até essa consciencia me ajudou a ser mais amorosa verdadeiramente. agora por tamanho esforço e empenho minha filha tem um tique, não sei em que momento isso pode se relacionar à história, talvez vc tenha uma visão mais clara. desde já gratidão.

    1. Oi Fabiana! Em relação a tua filha, é difícil afirmar algo sem uma avaliação profissional. Mas com certeza alguma coisa provocou este ‘tique’, acredito que é interessante investigar melhor. Grande abraço! 🙂

  6. Ana vc acha q esse tipo de relação mãe e filha desde a infância pode gerar uma mulher adulta que rejeite sobre todos os termos a maternidade?

    1. Olá Andreia, vi sua pergunta é como a Ana também acredito que sim, porém veja meu caso que é o contrário, sou filha de uma mãe tóxica e vivi desde minha infância sobre a influência dela, sofro até hoje com a relação é as marcas deixadas por ela, mas sou mãe, de uma menina de seis anos, temos uma relação linda de afinidade e confiaça, de alguma maneira usei toda a minha dor de maneira positiva na criação da minha pequena, não a julgo, tento ser sempre companheira, participo de seu mundo e sua vida. Fiz parto natural, amamentai por mais de dois anos e temos um amor lindo é uma relação afinada. Ou seja, só para mostrar que o contrário também é possível. Beijos

      1. Oi Ana, fico feliz por vc ter superado tudo tão dignamente!! Mas meu caso é diferente e pega principalmente com a gravidez, tenho aversão total a gravidez e tudo q a envolve!! principalmente a barriga (e não é por vaidade). Minha mãe teve 6 filhos, pq na época dela não era popularizado uso de anticoncepcionais… então os filhos não foram desejados, acho q ela “pegou” aversão à gravidez e passou isso pra mim que fui a sexta a nascer… Tudo pra mim é achismo, não sei se serei mãe um dia e tenho medo de isso acontecer comigo e qual atitude eu possa tomar.

  7. Adorei o texto, eu tenho uma mãe tóxica e tenho sofrido muito, desde que resolvi me divorciar ela tem me infernizado, já perdi o emprego e meu namorado por conta de ameaças, perseguições.
    E com tudo isso ainda sinto muita dor por ter me distanciado e tirado ela da minha vida. Hoje percebo todas as cicatrizes que essa relação deixou em minha personalidade. Ler sobre o tema tem ajudado muito, ver que muitos passam pelo mesmo também.
    Obrigada

    1. Oi Ana! Fico feliz em saber que este texto te ajudou de alguma forma. Talvez seja necessário se ‘divorciar’ da tua mãe (real e imaginária), para assim, se libertar desta dor pelo distanciamento. Afinal, quem realmente está sofrendo – e perdendo – é tu, e não ela. Grande abraço!

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