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O nascimento de um psicopata

O nascimento de um psicopata

“Eu não sabia o que fazia as pessoas quererem ser amigas. Eu não sabia o que as fazia querer ser atraentes umas para as outras. Eu não sabia o que eram interações sociais.”
“Eu sou o mais frio filho da puta no qual você já colocou seus malditos olhos. Eu não dou a mínima para aquelas pessoas.”

Essas assustadoras frases de Ted Bundy claramente resumem as principais características de um psicopata: uma pessoa insensível, manipuladora, sem empatia, impulsiva, e incapaz de sentir culpa ou remorso.

Quando falamos em criminosos psicopatas, logo nos vem a cabeça um sujeito completamente louco segurando uma moto-serra na mão. Filmes, séries e até reportagens de TV tendem a mostrar aos espectadores que toda pessoa que comete um crime hediondo é um psicopata. Mas muitas das vezes, o assassino tachado de psicopata pela sociedade cometeu seu crime durante um surto psicótico, e psicose e psicopatia são duas coisas completamente distintas. Psicose e psicopatia são diferentes tipos de transtornos mentais. Psicose é a completa perda do senso de realidade, já a psicopatia é um transtorno de personalidade, assim como o transtorno de personalidade narcisista. Os transtornos de personalidade são permanentes enquanto que as perturbações psicóticas podem ser controladas mediante administração correta de medicamentos neurolépticos.

“Eu não me sinto culpado por nada. Eu sinto pena de quem se sente culpado.” Ted Bundy

Psicopatas são calculistas e manipuladores, mas eles não sofrem de alucinações ou delírios. Eles não ouvem vozes de estranhos em suas cabeças dizendo sobre elaboradas teorias conspiratórias. Muitos assassinos em série tem como principal motivação para seus crimes os delírios, muitos bizarros, decorrentes de uma perturbação psicótica. O serial killer Carl Eugene Watts estrangulou várias mulheres porque ele viu o mal em seus olhos. Belle Sorenson Gunnes matou seus maridos porque ela acreditava que eles eram homens demoníacos. Ed Gein mutilou, esfolou e esviscerou corpos porque ele queria ser uma mulher e acreditava que ele precisava de partes de corpos femininos para ser uma (ou talvez para fazer uma réplica de sua mãe). Richard Trenton Chase bebia e se banhava no sangue de suas vítimas. Ele acreditava que tinha que fazer isso para evitar que os nazistas transformassem seu sangue em pó com um veneno que eles escondiam debaixo de uma saboneteira. Joseph Kallinger embarcou numa missão homicida após receber ordens de uma cabeça flutuante chamada Charlie.

Mais uma vez, psicose e psicopatia são dois transtornos mentais completamente diferentes, e saber diferenciá-los é importante para a não proliferação do falso conhecimento.

O Nascimento de um Psicopata
As causas da psicopatia permanecem um mistério. Nós não temos sequer uma resposta satisfatória para a questão: A psicopatia é um produto da mãe natureza ou da infância?

Uma tentativa de dar uma resposta a essas questões vem com a criminologia biossocial, uma perspectiva interdisciplinar emergente que procura explicar o crime e comportamentos anti-sociais através de múltiplos fatores, dentre eles: os fatores genéticos, neuropsicológicos, ambientais e evolutivos. Nos últimos anos houve, de certa forma, um renascimento dos estudos nessa área; estudos estes mais sofisticados e com capacidade de analisar o poliformismo genético e o funcionamento cerebral de psicopatas. Tais estudos tem como principio entender como os fatores biológicos e genéticos interagem com o ambiente e conduzem a diferentes propensões para o comportamento anti-social. A criminologia biossocial sustenta que os efeitos biológicos e genéticos são reduzidos, ou até mesmo inexistentes, a menos que estejam emparelhados com um ambiente criminogênico (ex.: disfuncionalidades familiares). Os genes, portanto, não seriam de todo deterministas, porém, indicariam a probabilidade do sujeito apresentar comportamentos anti-sociais.

Caminhando para a área da genética, existem três campos de estudos que visam investigar a relação da genética/ambiente na formação de uma mente psicopata: estudos com gêmeos, estudo com adotados e estudos em genética molecular. Tais estudos são ponderados com as influências do ambiente compartilhado (ambiente comum a todos os irmãos de uma família), do ambiente não compartilhado e da hereditariedade. Hoje, a principal conclusão desses estudos é de que a combinação entre predisposição genética + ambiente criminogênico teria como resultado o comportamento anti-social.

O “Estudo de Gêmeos Criados Separadamente de Minnesota” foi um projeto originalmente liderado pelo professor de psicologia Thomas Joseph Bouchard Jr. e mostrou que a psicopatia é 60% hereditária. Esse percentual indica que traços psicopáticos são mais associados ao DNA do que à criação.

Outros recentes estudos genéticos de gêmeos indicam que gêmeos idênticos podem não ser tão geneticamente similares, como até então acreditava-se. Apesar de apenas algumas centenas de mutações ocorrerem durante o desenvolvimento fetal, elas provavelmente se multiplicam ao longo dos anos, levando a enormes diferenças genéticas. Isso deixa aberta a possibilidade de que traços psicopáticos são, em grande parte, determinados geneticamente.

As Raízes da Psicopatia
Publicado em 2008, o estudo Criminals in the Making, dos criminólogos John Wright, Stephen Tibbetts e Leah Daigle, indicou que tanto a estrutura cerebral como o seu funcionamento estariam envolvidas na etiologia da violência, agressão, crime, e até mesmo da psicopatia. Em outras palavras, a estrutura e a forma como o cérebro de algumas pessoas funcionam seriam o segredo para entender o comportamento violento e até mesmo as origens da psicopatia.

Nesse sentido, e tomando outros estudos como referência, duas áreas cerebrais parecem estar consistentemente envolvidas quando pronunciamos o nome psicopata: o sistema límbico (composto pela amígdala, hipocampo e tálamo) e o córtex pré-frontal.

O córtex pré-frontal e o sistema límbico. Foto: guia.heu.nom.br

O sistema límbico é essencial para a regulação de nossas emoções mais complexas e de nossos estados afetivos e motivacionais. Ele estaria relacionado à psicopatia através da criação de certos impulsos, como por exemplo, a raiva e o ciúme, que são facilitadores para a prática de atos violentos.
O córtex pré-frontal, uma região cortical na parte frontal do cérebro, é o responsável pelas funções de ordem superior executivas, como por exemplo, a capacidade de adiar a gratificação e controlar os impulsos. Ele é uma estrutura interligada com o sistema límbico, sendo o córtex pré-frontal o responsável por reprimir os impulsos gerados a partir das estruturas límbicas.
Segundo alguns estudos, um sistema límbico hiperativo mais um córtex pré-frontal hipoativo seria a combinação perfeita para o desenvolvimento da psicopatia.

Esta anormalidade foi identificada em um estudo da Universidade de Wisconsin. Scans cerebrais revelaram que a psicopatia em criminosos estava associada a uma diminuição da conectividade entre a amígdala, uma estrutura subcortical do sistema límbico que processa estímulos nocivos, e o córtex pré-frontal, que interpreta a resposta da amígdala. Quando a conectividade entre essas duas regiões é baixa, o processamento de estímulos nocivos na amígdala não se traduz em nenhuma emoção negativa sentida. E isso se encaixaria muito bem na imagem que temos de psicopatas. Eles não se sentem ansiosos ou envergonhados quando são pegos fazendo algo ruim. Eles não ficam tristes quando outras pessoas sofrem. Apesar de sentir dor física, eles não estão numa posição de se machucarem emocionalmente.
O estudo da Universidade de Wisconsin mostra uma correlação entre psicopatia criminal e anormalidade no cérebro. Como essa anormalidade cerebral, na maioria dos casos de criminosos psicopatas, não é adquirida, há uma boa razão para pensar que ela está fundamentada no DNA do indivíduo.
À mesma conclusão já havia chegado o neurocientista norte-americano Jim Fallon, que nos anos 90 conduziu estudos com psicopatas assassinos.

“Um certo grupo (assassinos) tinha sempre uma lesão no córtex orbitofrontal, acima dos olhos. Outra parte que parecia não funcionar bem era a parte frontal do lobo temporal que abriga a amígdala, o local onde nossas reações se tornam diferentes das dos animais”, disse Fallon no documentário What Make Us Good or Evil, da rede britânica BBC.

Cada vez mais surgem evidências de que o cérebro dos psicopatas apresentam alterações, sobretudo no que remete ao córtex pré-frontal. Algumas pesquisas com ressonância magnética trouxeram resultados incríveis, que mostram que indivíduos com transtornos de personalidade anti-social apresentam redução de 11% (em média) da massa cinzenta pré-frontal, e isso é significativo já que o córtex pré frontal é uma área associada a sentimentos de vergonha, culpa, constrangimento (uma adequação social). Como demonstrado nessas pesquisas, os psicopatas apresentam uma menor quantidade de matéria cinzenta no córtex pré-frontal e por consequência as respostas sociais não podem ser iguais das pessoas com o córtex pré-frontal “normal”. Isso não pode ser levado como uma verdade absoluta, mas de acordo com essa perspectiva um psicopata apresentaria menor resposta autonômica a um estressor social por ter menor quantidade de matéria cinzenta no córtex pré-frontal.

Em assassinos foi verificado que existe uma redução no metabolismo da glicose no córtex pré-frontal, isso indica que essa estrutura cerebral atua como “freio” para os impulsos gerados no sistema límbico.
Há, no entanto, algumas limitações nesses estudos. Eles foram realizados com psicopatas que cometeram crimes de assassinato, e sabemos muito bem que a maioria dos psicopatas não são assassinos. Sabemos que psicopatas são manipuladores, agressivos, impulsivos, e que não sentem empatia por outras pessoas, entretanto, tais características estão longe de conduzí-los ao assassinato. Nesse sentido, e quando pronunciamos a palavra psicopata, temos níveis de atuação criminal extremamente diversificados. Psicopatas podem não matar (diretamente), mas podem desviar dinheiro de hospitais públicos, praticar o crime de burla… E isso faz surgir uma pergunta: Os psicopatas com manifestação mais tênue da perturbação teriam também essa atividade entre a amígdala e o córtex pré-frontal reduzida? Não há resposta. Outra limitação do estudo é que ele não mostra se a redução da interatividade entre a amígdala e o córtex pré-frontal é uma deficiência especificamente ligada à psicopatia. E as condições mentais que têm sido associadas a crimes graves, como a esquizofrenia paranóide e os fetiches sexuais extremos?
Embora os estudos, como o de Wisconsin, lancem alguma luz sobre as origens da psicopatia, ela permanece intrigante.
Indo ao outro extremo, alguns especialistas tem discutido formas de ensinar psicopatas a, digamos, ser mais humanos.

Elsa Ermer e Kent Kiehl, da Universidade do Novo México, em Albuquerque, descobriram que psicopatas têm dificuldades em seguir regras baseadas na sensibilidade moral, apesar de compreendê-las perfeitamente. As emoções reprimidas de psicopatas parecem desempenhar um papel que os impede de seguir regras. Mas essa deficiência, possivelmente, é corrigível. Sabemos que pessoas com transtorno do espectro autista têm dificuldades em captar regras sociais ou fazê-las da maneira correta em determinados contextos sociais. Mas eles podem aprender. Por exemplo, eles podem aprender a fazer contato olho no olho, aprender a realizar contatos de forma indireta, podendo assim aprender a manifestar interesse em outras pessoas. Às vezes, isso requer anos de treinamento com um terapeuta ou profissional da saúde. Eles têm que aprender a fazer o que os outros sabem instintivamente pela interação com membros da família e colegas. Se as pessoas com alto grau de autismo, uma doença hereditária, podem aprender os sinais sociais, então, presumivelmente, alguns psicopatas poderiam aprender a seguir regras morais, passando por um treinamento intensivo. Um tipo de experimentação poderiam ser programas de treinamentos que aumentassem artificialmente o processamento de emoções negativas e, em seguida, ensiná-los a associar essas emoções negativas com más ações, moralmente inaceitáveis. Para isso, alguns especialistas já sugeriram o uso de alucinógenos, como o psilocybin.

Genes do Mal e o Fator Ambiente
Estudos de terceira geração em genética levantam a questão de quais genes poderiam estar envolvidos na predisposição do comportamento anti-social. Algumas respostas começaram a surgir através da genética molecular. Quando realizado o knockout do gene da monoamina-oxidase A (MAO-A) em ratos, esses tornaram-se potencialmente agressivos. O knockout, em termos de genética, significa desativar um gene para observar que tipo de alterações isso pode acarretar e, consequentemente, determinar a nível de genótipo qual a designação daquele gene. Pesquisas da área retratam a ligação do gene MAO-A com a agressividade, e nas experiencias com ratos, quando o gene MAO-A é desativado, ele se torna mais agressivo. Quando voltam a reativar o gene, o ratinho passa a ter novamente um comportamento normal. Isso significa que esse gene tem relação direta com a agressividade, e uma variação dele poderia ocasionar o aumento de agressividade. Um dos estudos que previu essa ligação foi o “Monoamine oxidase gene A (MAOA) prevê comportamento agressivo diante de provocação”. Segundo os autores do estudo, a baixa atividade do gene MAO-A poderia levar a uma pré-disposição para um comportamento agressivo e desproporcional diante de situações onde o indivíduo é provocado.
Entretanto, o desafio maior da terceira geração de estudos genéticos não é apenas identificar quais os genes envolvidos na psicopatia, e sim como esses genes codificam os transtornos cerebrais nos grupos de anti-sociais. Sujeitos com polimorfismo comum no gene MAO-A apresentam 8% de redução no volume da amígdala, no giro do cíngulo anterior (região do sistema límbico) e no córtex pré frontal, estruturas envolvidas nas emoções e que em sujeitos anti-sociais estão comprometidas. A hipótese é a de que anormalidades genéticas também desencadeiam anormalidades a nível cerebral.
É evidente que, muito embora já se consiga hoje relacionar o crime com predisposição genética, os processos psicossociais não podem ser desconsiderados. Fatores ambientais no inicio do desenvolvimento poderiam alterar de forma direta a expressão do gene, e com isso alterar também a estrutura cerebral, resultando assim no comportamento anti-social.

Em suma, o ambiente social pode interagir com os indicadores genéticos e biológicos, mas considera-se também que o comportamento violento e criminal aumenta significativamente quando combinado esses dois fatores, o risco biológico e o risco social.
Nós não podemos excluir que o abuso na infância ou negligência possam ser um fator desencadeador para a psicopatia, mas isso não é um fator que contribui para ser um psicopata. Além disso, apesar de criminosos como Charles Manson terem sido abusados e negligenciados quando crianças, a lista de psicopatas serial killers que tiveram uma infância normal é infinita. Serial killers famosos como Ted Bundy, Jeffrey Damer e Dennis Rader cresceram em famílias normais e com apoio.
A verdade é que ainda estamos longe de uma resposta definitiva sobre as origens da psicopatia, e no pior dos casos, o que leva um psicopata a se tornar um assassino e, indo mais a fundo, a resposta científica para a aberração mental chamada serial killer. Serial killers são casos tão extremos que é natural para nós perguntar se essas pessoas não possuem defeitos cerebrais. Sem uma resposta definitiva, nós podemos apenas supor, assim como fez Harold Schechter, em seu livro Serial Killers – Anatomia do Mal:

“Parece provável que tanto a educação como a natureza podem contribuir para a criação de serial killers”.

Fonte: texto originalmente publicado no blog O Aprendiz Verde. 

Grande abraço,

Ana Cruz – psicanalista

Perfil da mãe narcisista: perfil cognitivo e comportamental característico

Perfil da mãe narcisista: perfil cognitivo e comportamental característico

O perfil da mãe narcisista é bem característico. A seguir você encontrará uma lista completa das peculiaridades mais típicas da mãe narcisista:

É abusiva: por acreditar que o título de “Mãe” lhe confere imunidade e direitos especiais, a mãe narcisista abusa da filha psicológica, verbal e emocionalmente para se autovangloriar, pois é incapaz de amar e aceitar a si mesma. A filha de mãe narcisista por ser naturalmente dependente da aprovação e do amor da mãe representa a vítima ideal para servir aos interesses narcisistas, indiscriminadamente. A mãe narcisista manipula a filha por meio do amor incondicional desta e a adestra a acreditar em sua suposta inferioridade, assim como na suposta responsabilidade vitalícia pelo seu bem-estar, seja emocional, psicológico ou financeiro, independente da maneira como é tratada.

É a dona da verdade: tudo que a mãe narcisista alega a respeito de si mesma, dos outros e do mundo defende como verdade inquestionável. Mesmo quando expressa ideias infantis e incoerentes, é inflexível na interpretação que confere a sua mensagem, não permitindo que suas afirmações sejam contestadas e tampouco refutadas. Argumentar com a mãe narcisista transforma-se em uma tarefa inócua, pois ela não reconhece erros de julgamento ou discrepâncias em seu próprio discurso. A verdade não se baseia em dados racionais ou objetivos, mas oscila de acordo com o desejo da mãe narcisista.

Problemas de identidade: como o narcisista tem uma essência quebrada, é inautêntico em tudo o que diz respeito a si. Por possuir um senso de identidade defeituoso, está sempre atrás de estímulos externos para compensar pela falta de conteúdo. O(a) narcisista segue o que está em voga no momento como guia de autodireção pessoal. É prática comum da mãe narcisista se espelhar no estilo, atitude e o comportamento dos outros, como os da própria filha, principalmente quando refletem seus ideais narcisistas superficiais de forma acurada, como os referentes à beleza, admiração, status social e financeiro, popularidade etc.

Possui uma autoestima frágil: não há nada mais fácil do que magoar ou ferir os sentimentos de uma mãe narcisista. Isso se deve ao fato de que tem um senso deturpado do que consista valorizar-se e amar a si mesma. De acordo com o que o(a) narcisista acredita, o valor de um ser humano só existe quando reconhecido, isto é, ocorre de fora para dentro e exclusivamente através de conquistas, aparência física, talentos especiais, popularidade, admiração, elogios, status financeiro e social. Se você não aprovar algo relacionado à mãe narcisista, sejam suas posses, estilo ou seus atos, ela iguala a sua reprovação a um ataque a sua pessoa. Como seu “amor-próprio” é inteiramente suscetível, só consegue se aceitar quando aceita pelos outros, quando atinge sucesso total em tudo o que faz ou se destaca de alguma maneira.

Não tem empatia (característica mais marcante do perfil da mãe narcisista): narcisistas são incapazes de se identificarem com o sofrimento alheio de forma genuína e consistente com as necessidades dos outros. Como são egoístas e egocêntricos(as), recusam-se a reconhecer quando alguém precisa de ajuda ou apoio emocional. A mãe narcisista constantemente subestima e conscientemente ignora a dor de sua filha, enquanto insiste que esta se dedique incondicionalmente a atender suas próprias carências.

Distanciamento emocional: o(a) narcisista só reconhece a validade de seus próprios sentimentos. Por acreditar ser merecedora de tratamento e atenção especiais, a mãe narcisista se recusa a se envolver com as emoções dos outros. Devido a sua atitude egoísta e egocêntrica, é incapaz de estabelecer uma conexão afetiva genuína com quem quer que seja, incluindo sua própria filha, pois age de maneira fria, seca e distante quando o assunto não orbite ao redor de seu próprio estado ou necessidades emocionais.

É perfeccionista: tudo o que o(a) narcisista faz é a reprodução mais acurada dos parâmetros mais altos de excelência. Com problemas de identidade e de autoestima frágil, o (a) narcisista precisa ser bajulado constantemente. Ao contrário do que acredita, sua atitude perfeccionista não comunica um talento nato, mas uma insegurança profunda. Quando não consegue corresponder as suas regras e expectativas, ou quando não é reconhecido através de elogios, sofre com a autocrítica desabonadora. O perfeccionismo da mãe narcisista é desgastante, fazendo todos ao seu redor se sentirem pequenos e desvalorizados.

Famílias disfuncionais: narcisistas comumente provêm de famílias disfuncionais. A família criada pelo narcisista, invariavelmente, acaba se tornando uma. É praticamente impossível manter uma vida harmoniosa em família sob a influência direta de uma matriarca narcisista. Visto que manipula todos a sua volta para servir aos seus próprios interesses, a união entre os membros da família acaba ficando comprometida. A mãe narcisista usa de leilão emocional para favorecer o(a) filho(a) “do momento”, ou seja, aquele(a) que está mais disposto a corresponder as suas vontades e exigências descabidas sem grande protesto, estimulando o desentendimento entre irmãos(ãs) de forma sutil, insincera e amoral.

Trata os outros de forma superior: o narcisista é naturalmente arrogante, pois acredita ter sido colocado ao mundo para ser servido e admirado. Por ter uma autoestima frágil e que requer constante afirmação externa, usa das interações com as outras pessoas para se autovangloriar, é presunçoso(a) e está sempre subestimando a inteligência e a experiência alheia. Como resultado, a filha de mãe narcisista nunca tem nada de bom para oferecer ou contribuir em seu relacionamento com a mãe. Independente de sua idade, estágio de desenvolvimento, experiência ou know-how, seu intelecto é sistematicamente menosprezado, suas habilidades e talentos ignorados ou descartados e seus argumentos rejeitados sem ao menos serem devidamente considerados.

Relacionamentos disfuncionais: manter um relacionamento com um(a) narcisista significa se submeter à tirania de seu ego gigantesco, faminto e incansável. Seja com mãe, pai, “amigo”, colega de trabalho ou parceiro amoroso, insistir em um relacionamento com um(a) narcisista significa dizer sim a uma vida marcada pela autoanulação, segredos, chantagens emocionais, codependência, mentiras e abuso psicológico, entre outros. Como se recusa a aceitar e respeitar a individualidade e a autonomia alheias, assim como as preferências e necessidades dos outros, o relacionamento com a mãe narcisista só “funciona” quando a filha se submete de corpo e alma a seu controle e manipulação psicológica.

Vive de aparências: para indivíduos com transtorno de personalidade narcisista, what you see is not what you get. Para compensar a autoestima frágil, o desconforto emocional, a falta de identidade, autenticidade, naturalidade, autoconfiança e amor-próprio, o(a) narcisista tende a exibir um esmero e uma preocupação exagerados com a aparência física. A mãe narcisista capricha no visual a fim de distrair a atenção dos outros de sua alma em ruínas, pois tem verdadeiro pavor de que reconheçam seus defeitos. É grande entusiasta da cultura da imagem e investe nela para se autopromover, mesmo quando se sente perdida, deprimida, inadequada e insatisfeita por dentro, pois necessita de admiração e aprovação externas para se sentir inteira.

Provoca discussões e brigas: por estar constantemente insatisfeita, seja consigo mesma, com o que faz ou com os outros, a mãe narcisista está sempre provocando desentendimentos desnecessários para aliviar seu turbilhão emocional interno. Por ser incapaz de se centrar emocionalmente, lida com a raiva, por exemplo, descontando-a nos outros. Raramente opta pelo diálogo e o entendimento, mas mantém uma atitude intransigente e inflexível, propensa a perpetuar a discórdia e a desavença. Sua tendência comportamental ao se sentir inadequada consiste em extravasar sentimentos antagônicos até que todos a sua volta se tornem tão infelizes ou, preferivelmente, mais infelizes do que ela, para que, finalmente, sinta-se “em paz” consigo mesma.

Não admite responsabilidade: enquanto tudo que é bom na vida da mãe narcisista corresponde ao resultado direto de seus talentos e charme inquestionáveis, nada que seja ruim acontece por responsabilidade dela. Como é intolerante e não aceita erros, está sempre à procura de bodes expiatórios para carregar o ônus de suas falhas. Se não consegue corresponder a suas próprias expectativas perfeccionistas, idealistas e irracionais, arranja alguém para culpar por sua suposta falta de sorte.

Não admite culpabilidade: mesmo quando arruinando relacionamentos por meio de sua atitude antagônica e intransigente, ou com seus humores insuportáveis e exigências descabidas, a mãe narcisista nunca admite causar mal algum a quem quer que seja. Se sua família é disfuncional e seus relacionamentos marcados pelo abuso, brigas e desentendimentos, “certamente” não é por causa da influência maligna e egoísta dela.

Não pede desculpas: por ser a dona da verdade e acreditar que nada do que acontece de forma ruim é culpa sua, a mãe narcisista nunca admite quando trata os outros de maneira imprópria. Mesmo quando tem plena ciência de seu comportamento abusivo, não pede desculpas quando magoa quem quer que seja.

Não cumpre com o que promete: o que o(a) narcisista diz não se escreve. Como é manipulador(a), egoísta e desonesto(a), diz o que os outros querem ouvir somente com o intuito de se autopreservar. Apesar de não ter intenção alguma de se sacrificar pelo próximo, a mãe narcisista faz promessas que nunca se tornam realidade e, quando lembrada delas, nega tê-las feito com a maior cara de pau.

Monopoliza recursos financeiros: a mãe narcisista, ao lidar com bens que não pertençam exclusivamente a si, como os correspondentes à família, age como se fossem somente seus, recusando acesso ou participação nas decisões referentes a gastos e investimentos e, muitas vezes, apropriando-se totalmente dos recursos disponíveis.

Normaliza o sofrimento alheio: a vida do(a) narcisista é um grande drama. Ninguém sofre tanto quanto a sua mãe narcisista, que trata eventos negativos de sua vida como acontecimentos inéditos do catálogo Homo sapiens. Por ter zero empatia, no entanto, reage de forma blasé diante da agonia alheia. A discrepância é tão gritante, que como filha de mãe narcisista a pessoa questiona a própria sanidade mental e o mérito de sua miséria pessoal, como se não fosse digna de seus próprios sentimentos.

É incongruente: a ética, a moral e os valores do(a) narcisista são alardeados fervorosamente através de frases de impacto e comentários repletos de indignação àqueles que não os respeitam. Na prática, contanto, sua atitude é inconsistente, frequentemente divergindo ou descordando completamente de seus argumentos ou dos princípios que alega manter.

Tem opiniões extremas: como a percepção do(a) narcisista é baseada em crenças tendenciosas, irracionais e perfeccionistas, vê o mundo em preto e branco. A mãe narcisista julga a tudo e a todos de maneira exagerada e infantil. Seus gostos e preferências, embora baseados exclusivamente em motivações subjetivas e de caráter inconsistente e passageiro, são mantidos como correspondentes universais dos padrões mais altos de qualidade. Quando diz gostar de algo ou alguém, é devido a sua superioridade irrefutável. Se demonstra desaprovação, é pelo fato de que o objeto de seu desdém é, em sua totalidade e independente de perspectiva de avaliação, completamente inaceitável. Medida é um conceito que a mãe narcisista pode até entender em teoria, mas está longe de saber aplicá-lo na prática.

É deslumbrada: com valores superficiais e mania de grandeza, a mãe narcisista se vê facilmente encantada com o que seja caro, belo ou sofisticado. A beleza e a condição financeira privilegiada, de acordo com a atitude e mentalidade narcisistas, perdoa – e até mesmo erradica – qualquer atributo negativo de peso. Como não há nada de mais sedutor para a mãe narcisista do que ser elogiada, invejada e cobiçada, faz de seu objetivo se associar com objetos e pessoas que reflitam um status social elevado.

É egoísta: tudo o que é da mãe narcisista é para uso exclusivo seu. Mesmo que tenha o hábito de abusar das posses assim como da boa vontade dos outros, não compartilha de nada, principalmente dinheiro. A mãe narcisista nunca empresta ou dá dinheiro a ninguém, nem mesmo a parente próximo, parceiro amoroso ou amigo. Também sempre tem uma desculpa ou justificativa na ponta de sua língua para se esquivar de ter de ajudar os outros, seja essa ajuda de natureza física, psicológica, emocional ou monetária, enquanto desfruta do apoio e dedicação daqueles que ainda se encontram sob sua influência.

É egocêntrica (característica marcante do perfil da mãe narcisista): tudo que ocorre na vida da mãe narcisista, assim como na de quem depende ou convive diretamente com ela, gira ao redor de suas necessidades e perspectivas. Planos e decisões de família são fundamentados nas suas opiniões e vontades, pois somente os interesses e sentimentos dela tem validade. Como precisa da aprovação dos outros para se sentir segura de si mesma, quando seu ego não é servido, sente-se rejeitada ou desvalorizada.

Vergonha: narcisistas não aceitam defeitos ou fraquezas, sejam em si mesmos ou nas outras pessoas, sentem-se facilmente dominados pela vergonha. Como acreditam que a autoestima só é possível através de elogios, reconhecimento e admiração, frequentemente se sentem humilhados e diminuídos, sobretudo quando perante o risco de suas vulnerabilidades serem expostas. Como se recusam a explorar o efeito de seus sentimentos, baseiam seus comportamentos de maneira a proteger sua autoestima frágil a todo custo, independente das consequências a seus relacionamentos.

Lavagem cerebral: o que se recebe de uma mãe narcisista não é educação, mas uma lavagem cerebral. Para “aceitar” a atitude e o comportamento incongruente, irracional e intolerante do(a) narcisista, somente sob intensa e prolongada pressão. A mãe narcisista convence durante anos de persuasão e adestramento daqueles que se submetem – voluntariamente ou não – a seu controle e influência. Condiciona seus filhos(as) e parceiros amorosos a acreditarem em suas mentiras e no suposto mérito de seu comportamento abusivo com tanta persistência e determinação que, mesmo depois de morta ou de ser cortada de suas vidas, suas palavras continuam a reverberar nos ouvidos de suas vítimas.

Pratica bullying: o bullying – ou a intimidação por parte de agressão verbal ou física – é uma das táticas de abuso narcisista mais eficientes. A mãe narcisista vive fazendo comentários desagradáveis disfarçados de conselhos de mãe dedicada para envergonhar e humilhar a filha. Por se ressentir de sua jovialidade e liberdade, ou de tudo aquilo que lhe concede vantagem ou favorecimento em face dela, reage de maneira amarga e vingativa quando se sente ameaçada. Mesmo sem razão aparente para agir de forma melindrada e rancorosa, provoca brigas, dando ferroadas gratuitas para acabar com o bom humor e a joie de vivre de quem inveja.

Exibe comportamento infantil: narcisistas não evoluem com a passagem do tempo, por isso, seguidamente se comportam como crianças teimosas ou adolescentes inseguros. Em vez de defenderem seus argumentos de forma racional, adulta e centrada, usam da intimidação, de discussões, brigas e chantagens emocionais para convencer os outros a servirem seus interesses, desejos e vontades.

Tem um senso de direito dilatado: o(a) narcisista, por julgar-se especial, faz uso de títulos como “pai”, “mãe”, “chefe”, “marido”, “esposa” etc., para exercer influência direta sobre os outros, bem como pela imposição de suas opiniões próprias e de bullying. Os direitos da mãe narcisistas vão além da tutela. Acredita ser dona não somente da aparência de sua filha, mas de seu comportamento, atitude e escolhas pessoais. Tem o hábito de rejeitar a identidade, individualidade e autonomia desta como se fossem totalmente descartáveis, ou não tivessem valor real algum.

Não respeita limites pessoais (característica marcante do perfil da mãe narcisista): a mãe narcisista não registra o “não”. Está sempre ignorando a vontade dos outros ou os compelindo a seguir o que ela deseja. Recusa-se a reconhecer os direitos dos outros, como se nada fosse mais importante do que seus próprios problemas, planos e desejos. Como resultado, trata a filha como acessório ou criança rebelde quando esta tenta impor seus próprios limites.

Foge da verdade: a verdade, para os(as) narcisistas, é cruel. Por viver mascarando suas próprias vulnerabilidades a fim de emanar uma aparência de permanente superioridade e perfeição, evita avaliar sua condição de forma genuína “como o diabo foge da cruz”. Quando se sente acuada por perguntas e observações que visam analisar a razão por trás de tantas desavenças familiares e problemas de relacionamento, a mãe narcisista se isenta de toda e qualquer culpa ou remove a atenção de seu próprio comportamento, ou se recusa a considerar argumentos e sem dar satisfações, pura e simplesmente.

Negligência emocional: a mãe narcisista ignora conscientemente os sentimentos dos outros por total falta de interesse. Como somente o que sente merece consideração, reage de maneira fria e indiferente ao sofrimento ou alegria alheios. Não reconhece que as outras pessoas também passam por momentos difíceis e chega a incentivar que se reprimam sentimentos antagônicos para não ter de se sacrificar pelo próximo. Da mesma forma, não demonstra entusiasmo algum pela felicidade dos outros em momentos de celebração, pois quando a atenção está voltada para fora de si mesma o evento perde totalmente a utilidade.

Sofre de depressão (característica marcante do perfil da mãe narcisista): mesmo quando emanando uma aura de superioridade e controle por fora, por dentro o(a) narcisista carrega uma ferida aberta em sua autoestima. Tudo o que diz respeito à verdadeira face do(a) narcisista o(a) coloca como grande candidato(a) à depressão, como sua tendência à autocritica e ao autodesprezo, assim como sua permanente recusa de lidar com sentimentos antagônicos de forma saudável e eficiente. Além disso, sua incapacidade de amar e tratar a si mesmo com complacência perpetua sentimentos de autorrejeição. Como nega suas próprias vulnerabilidades ou a existência de problemas de ordem psicológica e emocional, vive uma vida marcada pela insatisfação. Quando seu descontentamento se torna generalizado e afeta seus relacionamentos de forma dramática e, muitas vezes, irreparável, finalmente se vê tomado(a) por um episódio depressivo.

Mente descaradamente: para que consiga se manter como o centro das atenções e fazer somente o que quer, o(a) narcisista mente, sem vergonha nenhuma. Mente para se esquivar de responsabilidades, para se proteger e se autopreservar. A mãe narcisista usa da mentira principalmente para perpetuar o abuso emocional e psicológico, como o de sua filha. Nega ataques verbais e demais atitudes e comportamentos impróprios como se fossem produto de uma imaginação fértil.

Vive se comparando com os outros: porque o amor-próprio de mentira do(a) narcisista é mantido de fora para dentro, precisa de estímulos externos negativos para se sentir bem consigo mesmo(a). Para manter a “autoestima”, a mãe narcisista está sempre à procura de alguém mais acima do peso, mal-apessoado, pobre, velho, desarrumado ou infeliz do que ela. Tem verdadeira paixão em alardear seus supostos atributos e vive ostentado sua superioridade quando a chance aparece.

Negligência afetiva: a mãe narcisista não é nem um pouco carinhosa. Por ter zero empatia, raramente trata a filha de forma afetuosa quando esta se sente triste ou descontente. Não gosta de intimidade e da aproximação física ou emocional, mas insiste em manter uma certa distância ou “ser deixada em paz”, para se concentrar exclusivamente no que considera de fato relevante: suas próprias vontades.

Dá presentes esquisitos: receber presentes de uma mãe narcisista é uma atividade surreal. Como não reconhece a individualidade, tampouco demonstra o mínimo de interesse nos outros, a sua percepção dos gostos e preferências da filha é completamente desconectada da realidade. A mãe narcisista compra presentes para a filha pensando em si mesma ou na imagem destorcida que mantém desta em sua mente. Como resultado, seus presentes são comumente do tamanho, estilo ou cor erradas, ou não correspondem de forma alguma a algo que a filha desejaria para si.

Flutuação de humor: narcisistas são facilmente influenciados por sentimentos antagônicos. Como quase tudo tem o potencial de afetar a mãe narcisista de forma negativa, um minuto está super para cima e no outro, lá embaixo. Por não saber trabalhar suas emoções de forma adulta e madura, está sempre extravasando a insatisfação nos outros para não implodir.

É invejosa (característica marcante do perfil da mãe narcisista): como o(a) narcisista está sempre se comparando com os outros para se sentir bem a respeito de si mesmo(a), morre de raiva quando se destacam mais do que ele(a), principalmente quando se identifica com o que os projeta para o topo do pódio, como beleza, melhora de condição financeira e popularidade. A mãe narcisista tem inveja até da própria filha e não tolera quando esta recebe mais atenção do que ela, ou quando se torna mais bem-sucedida. Na eventualidade de se sentir ameaçada por ela, reage com sua língua venenosa e não perde tempo em desmoralizá-la, seja indiretamente através da agressividade passiva ou com ataques abertos de crítica destrutiva gratuita.

É interesseira: quando o(a) narcisista precisa de alguma coisa, trata os outros de maneira atípica, isto é, com consideração e respeito. Quando a mãe narcisista quer que a filha empreste ou faça algo para ela, é carinhosa a afetuosa, come se estivesse tomada por um espírito benevolente. Também demonstra curiosidade e atenção inéditos em relação à filha quando reconhece uma oportunidade de autobenefício, como quando esta se encontra envolvida com pessoas de status econômico privilegiado.

Sabota a felicidade alheia: a mãe narcisista vive minando o entusiasmo e alegria dos outros, pois não tolera não ser o centro das atenções. Como é invejosa, também não atura ver a alegria e o entusiasmo da filha pela vida quando nunca está satisfeita com quem é e com o que tem. Para que não seja relembrada de sua miséria pessoal, acaba com a animação das outras pessoas as nivelando ao seu patamar. Quando em companhia da mãe narcisista, sempre ao lado ou inferior a ela, nunca acima.

Guarda rancor: quando você magoa o(a) narcisista, esse “erro” fica registrado em sua memória. A mãe narcisista não deixa nenhum deslize passar em branco, inclusive mantém um banco de dados das falhas de comportamento daqueles com quem se relaciona. Cada vez que a filha se recusa a atender suas vontades ou a acusa de agir de forma imprópria, ela acessa a memória para exemplos passados de “mau comportamento” e fornece uma longa lista das inúmeras vezes em que a filha a desapontou. Como seu objetivo é provar que está sempre certa, usa de todo o seu poder cognitivo para assegurar seus argumentos. Por outro lado, tem uma memória fraquíssima referente aos sucessos, conquistas e qualidades dos outros, principalmente quando são pessoas pelas quais se sente ameaçada, como a própria filha.

Tem problemas de intimidade (característica marcante do perfil da mãe narcisista): como o(a) narcisista é intolerante e se recusa a aceitar a própria humanidade, cria uma barreira entre seus sentimentos e quem realmente é. Está sempre agindo em total dissonância com o que pensa e sente, comportando-se de forma falsa e pretensiosa, mascarando suas verdadeiras emoções. Essa tendência à autorrejeição pessoal e emocional torna impossível criar uma conexão genuína e saudável consigo mesmo(a) ou com as outras pessoas, seja o relacionamento da natureza que for.

Se odeia: o maior mito a respeito dos narcisistas é de que “se amam” de forma exagerada. A realidade é o inverso disso. O(a) narcisista é incapaz de se aceitar e chega até a nutrir um ódio profundo contra si por não ser capaz de corresponder, de todas as formas e em todas as circunstâncias, à imagem idealizada de perfeição e sucesso absoluto que se esmera tanto em reproduzir.

Tem problemas de relacionamento no trabalho: ter um colega, ou o que é pior, um(a) chefe narcisista resulta em um verdadeiro pesadelo. Como é arrogante na décima potência, trata os outros como se lhe fossem inferiores enquanto se recusa a aceitar qualquer tipo de responsabilidade tanto por desentendimentos como quando algo com que esteja envolvido não dá certo. É um péssimo colega, pois não tem nenhum espírito de equipe. Como chefe é explorador, insensível, nunca dá crédito ao trabalho de ninguém e até rouba as ideias dos outros, além de tratar empregados como serviçais. A mãe narcisista está sempre reclamando de um ou outro problema no trabalho, visto que ninguém consegue aturá-la.

Tem problemas de relacionamento amoroso: relacionamento amoroso com narcisista é uma das maiores decepções na vida de alguém. Como são mestres do disfarce e possuem dotes artísticos de primeira classe, escondem-se atrás de uma cortina de fumaça de aparente perfeição. O charme e a suposta autoconfiança do(a) narcisista são, em princípio, atraentes, mas quando a máscara cai, ou seja, quando o(a) narcisista consegue o que quer (o outro), ele(a) revela a pessoa manipulativa e egoísta que realmente é. Por essa razão, relacionamentos com narcisistas tendem a não se estender por muito tempo, ou se duram é porque seus parceiros se anulam completamente para preservar a união, provavelmente por serem tão inseguros e de autoestima tão frágil quanto as do narcisista. A rotação de parceiros amorosos da mãe narcisista é normalmente numerosa. Quando consegue manter um relacionamento por um período razoavelmente prolongado é graças ao perfil psicológico e emocional de seu parceiro, que pela razão que seja, concorda em abdicar de sua individualidade para servir ao ego gigantesco da narcisista.

É agressiva passiva (característica mais marcante do perfil da mãe narcisista): a mãe narcisista usa de comentários indiretos maliciosos, como a ironia e o sarcasmo, para destilar seu veneno. Seu discurso é repleto de significados duplos intencionados a desmoralizar e desarmar a filha ao mesmo tempo. É uma de suas ferramentas de abuso psicológico mais eficientes, pois mascara suas verdadeiras motivações malignas com sofisticação.

Leva tudo pessoalmente: por ser incapaz de refletir objetivamente sobre si mesmo(a) e se identificar como entidade independente, o(a) narcisista julga a tudo e a todos em relação a si mesmo. É muito difícil fazer a mãe narcisista entender que o mundo não gira em torno dela, mas que contém indivíduos que possuem livre-arbítrio e visões de mundo próprias. Não aceita crítica, pois discordar com ela é rejeitá-la e considera a autonomia de pensamento como uma ofensa pessoal.

Não tem escrúpulo: a mãe narcisista mente descaradamente, explora a boa vontade dos outros enquanto abusa psicologicamente sem pensar duas vezes. Quando confrontada, não exibe consciência alguma ou remorso genuíno pela sua atitude, tampouco admite culpabilidade, mas usa das táticas mais baixas para reiterar a sua posição de superioridade, como através da manipulação e chantagem emocionais.

Abusa de entorpecentes: por se recusar a lidar com seus problemas psicológicos e emocionais de forma aberta e honesta, o(a) narcisista seguidamente se automedica com o álcool e as drogas. Como tem o hábito de negar ter qualquer tipo de problema, opta pelo escapismo com a finalidade de proporcionar um alívio rápido e imediato ao seu caos interno.

Exibe momentos de lucidez: como a mãe narcisista é humana e não uma máquina, não é ininterruptamente insuportável, mas passa por momentos de “lucidez” em que consegue, de modo breve, conter sua atitude abusiva. Esses momentos de relativa paz e harmonia, no entanto, são – infelizmente – exceção. A norma narcisista é o oposto disso. A triste realidade é que estes curtos intervalos de aparente calmaria doméstica são seguidos de longos períodos de tristeza e conflito.

É vingativa: quem contraria o narcisista, paga. Paga com sua reputação e também com seus relacionamentos, pois o(a) narcisista não tolera ser questionado(a), esquecido(a) ou abandonado(a). A filha de mãe narcisista, que “se atreve” a recusar o papel de atriz coadjuvante e acessório da própria mãe, acaba tendo de lidar com as consequências de uma campanha maliciosa contra seu nome. Por ser dissimulada e possuir dotes artísticos de primeira qualidade, se ignorada pela filha, coloca a máscara de mãe-coitada e usa de todos os recursos disponíveis para denegrir a sua imagem. Protegida pela instituição “Mãe” e com a ajuda de chavões do tipo “Eu fiz o melhor que eu pude”, projeta uma imagem de mártir para convencer a todos de suas supostas boas intenções e total inocência.

Texto escrito por Michele Engelke: formada em psicologia, escritora, terapeuta cognitivo-comportamental e fundadora do Liberty Counselling Luxembourg. Uma brasileira que mora e trabalha na Europa há mais de dez anos e que se especializou em narcisismo materno e se dedica a ajudar filhas de mães com transtorno de personalidade narcisista. Conheça o seu blog (de onde este texto foi extraído): filhas de mães narcisistas.

Grande abraço,

Ana Cruz – psicanalista

Entenda como funciona o ciclo do abuso em um relacionamento tóxico

Entenda como funciona o ciclo do abuso em um relacionamento tóxico

Muito tem se falado sobre relacionamento abusivo. Dedico uma página inteira ao tema, pois, por trás dessas relações, há assunto para uma coleção de livros e muito estudo. Para quem está fora de uma relação tóxica, parece bastante fácil identificá-las. Mas quem está dentro, vive mesmo é num estado constante de confusão mental e dúvida, onde nada parece tão óbvio.

Meu relacionamento é abusivo ou não?

As relações tóxicas/abusivas/destrutivas/doentias são, não raro, formadas por indivíduos com características do transtorno de personalidade narcisista ou antissocial de um lado e pessoas exacerbadamente empáticas ou emocionalmente dependentes do outro. Dificilmente cria-se uma situação destrutiva por um longo período entre pessoas emocionalmente saudáveis, pois não toleram e rompem rapidamente. Já entre narcisistas e dependentes emocionais cria-se uma simbiose.
Trata-se daquelas relações em que, não importa o que aconteça, a parte que se submete não consegue sair dela, como se estivesse quimicamente viciada e emocionalmente cega, e a parte que submete, parece alimentar-se daquele estado de coisas.
Se você não tem certeza se está vivendo uma relação tóxica, um método bastante simples é verificar se está presente a ocorrência de um ciclo repetitivo de abuso dividido em 4 fases principais que formam, resumidamente, a rotina do casal por toda a duração da relação.
Nesse cenário, passados os primeiros momentos da fase de conto-de-fadas, característico das relações tóxicas, a dinâmica relacional passa a ser marcada por esse ciclo ininterrupto de abuso, até que se dê a ruptura pelo alvo de abuso ou pelo descarte do abusador (mais comum). Entenda o que forma esse ciclo. Você se identifica?

CICLO DE ABUSO NAS RELAÇÕES TÓXICAS

1. TENSÃO
Surgem momentos de tensão, a maioria das vezes, imotivados ou causados por algo sem significância. Há interrupção brusca de comunicação com o alvo e uso silêncio passivo-agressivo. O alvo sente medo e confusão mental, passando a tentar apaziguar, compensar, reverter o comportamento tenso da pessoa abusiva

2. INCIDENTES
Ocorrem “incidentes” de abuso verbal, emocional ou físico. Há brigas, gritos, xingamentos, cara feia, ameaças, vitimização, intimidação e culpabilização. Inicialmente o alvo diz para si mesmo que não vai tolerar, mas…

3. RECONCILIAÇÃO
A pessoa abusiva se desculpa ou dá desculpas para o seu comportamento. Culpa o alvo por ter-lhe feito “perder a cabeça” e ou por ter criado aquela situação que resultou no incidente. Algumas vezes nega que o abuso tenho ocorrido ou que tenha sido tão grave quando o alvo afirma. Minimiza e estipula “novas regras”. O alvo se esforça para não ter novos incidentes.

4. CALMARIA
O “incidente” é esquecido. Há uma pausa nos comportamentos abusivos, dando início a uma fase de “lua-de-mel”. O alvo crê que exagerou. Sua crença na relação se fortalece novamente.

Volta-se à fase 1.

Se você se identificou e crê que seu relacionamento esteja permeado desse ciclo abusivo, talvez seja a hora de criar coragem e romper. Em que pese o fato da ruptura em relacionamentos tóxicos ser dolorosa e por a parte submissa numa espécie de crise de abstinência duríssima, ela é necessária e urgente para garantir sua saúde mental, emocional e física. Se você não põe um fim nesse ciclo, ele põe um fim em você. Não adie.

Fonte: texto escrito por Lucy Rocha, que administra a página Relações Tóxicas, na qual dá dicas e apoio a pessoas que vivem, viveram ou sobreviveram a uma relação abusiva. E originalmente publicado no site contioutra.com

Grande abraço,

Ana Cruz – psicanalista

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