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ANA CRUZ PSICANALISTA

“Tudo flui quando sentimos bem-estar mental. Aprenda que tudo é possível.” Fritz Perls – psicanalista
seja bem-vindo

Abuso sexual infantil e a negligência da mãe: parte II

Confira a segunda parte e o final da entrevista e saiba porque a mãe não deu importância para o abuso sofrido pela filha.

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Ana Cruz – Em quais momentos eles ficavam sozinhos? O que faziam? Tu procuravas acompanhar, saber, se inteirar?

Fernanda – Bem, como eu te disse, a gente era uma família normal. E nem tudo era só comigo, tivemos que nos dividir nos compromissos quando voltei a estudar, porque faculdade é puxado, ainda mais enfermagem, tem que se dedicar muito. As vezes era ele que buscava minha filha no colégio e ía pra casa com ela, dava o café da tarde, cobrava o tema, essas coisas. Eles brincavam muito também, só os dois. Ele era tão amoroso com a minha filha que na época em que já estava calor e abria a temporada das piscinas no clube, eles iam sozinhos porque ele tirava uma parte das férias para aproveitarem já que eu ainda tinha aula, a casa e as coisas deles para cuidar. E te respondendo a outra parte da tua pergunta, eu sabia o que eu via, ora: meu marido com a minha filha, simples.

Ana Cruz – Como tu soubeste do abuso sexual?

Fernanda – Minha filha já estava no colégio na 2ª ou 3ª série, não lembro direito, mas lembro perfeitamente quando a diretora me chamou para conversar pessoalmente sobre ela. Achei estranho e fui no dia seguinte. A diretora me disse que ela há um certo tempo tinha mudado o seu comportamento, passou a não conversar mais com os colegas, a ser mais agressiva com a professora, fez xixi na classe durante a aula 2 vezes seguidas e a chamou para conversar. Disse que minha filha tinha contado que foi abusada sexualmente pelo meu marido uma vez e que tinha muito medo de me contar. Me levantei na hora e fui embora para casa. Não acreditei. Eu não vi nada de diferente no comportamento dela e criança é muito criativa. Uma vez ela tinha inventado que um primo tinha passado a mão na bunda dela e era mentira. E ele, o meu marido, já tinha me falado que ela andava um pouco birrenta com ele e que era falta da mãe, que tinha lido sobre isso em algum livro de psicologia.

Ana Cruz – Tá, mas e depois, tu conversaste com ela sobre o relato da diretora? Falaste com ele?

Fernanda – Não. Já disse, criança é muito criativa. Eu sei o que eu via, um homem que assumiu a mim e a minha filha e nos dava tudo de melhor. Na verdade esse assunto veio à tona alguns anos depois de um jeito meio torto.

Ana Cruz – Como assim??

Fernanda – Eu parei de estudar definitivo quando meu marido aceitou a proposta de uma outra empresa e nos mudamos para Porto Alegre. As pessoas da capital têm uma outra cabeça, outra vida. A gurizada da idade da minha filha tinha um outro pique, dava para notar. Um bom tempo depois ela já tinha a tal turma do colégio, vivia na casa das amigas. E segui dona de casa, ele precisava de mim, pois trabalhava muito por nós. Ela começou a beber. Me dei conta quando fui buscá-la numa festinha e estava caindo de bêbada. Aliás, toda a gurizada da festinha estava bêbada. Aí teve uma noite que ela disse que teria carona para voltar e no meio da madrugada chegou em casa com um rapaz bem mais velho que berrava que iria matar o meu marido pelo o que ele tinha feito com a minha filha, foi um escândalo mesmo. Primeira vez que levei multa de condomínio, uma vergonha.

Ana Cruz – Sim, imagino o cenário.

Fernanda – Olha, foi um inferno, meu marido enxotando aquele rapaz quase no tapa, eu com a minha embaixo do chuveiro. No dia seguinte durante o almoço ela me pressionou na frente dele para perguntar sobre o “abuso”. Ela saiu contando que um dia ele disse que se ela fosse uma boa menina com ele ela não precisaria fazer o tema de casa e que seria um segredinho dos dois. Era alguma lição de matemática, ela sempre foi ruim em matemática, nunca vi. Ela disse que sentou no colo dele para que ele fizesse a lição por ela só para me mostrar mais tarde, e que enquanto isso colocou a mão por dentro da sua calcinha e meteu o dedo lá… nela. Daí perguntei para ele se era verdade e ele disse que até aconteceu, mas que não foi bem assim, que não teve dedo em lugar nenhum. Que foi um deslize, uma coisa de momento, chorou pedindo perdão e prometeu que jamais faria de novo. Tirei os pratos e servi a sobremesa, ela nem quis comer, se levantou emburrada sem dar uma palavra. Pra mim o assunto estava resolvido, vi muita verdade nos olhos dele.

Ana Cruz – Desculpe, “assunto resolvido”??!!

Fernanda – Sim, o que mais tu esperava?! Todo mundo comete erro nessa vida. E para Deus o importante é o arrependimento. Eu vi esse arrependimento nos olhos do meu marido.

Ana Cruz – E a tua filha nessa história?

Fernanda – Ficou revoltada por mais um tempo e aquele rapaz não apareceu mais. Peguei ela bebendo escondido várias vezes. Caiu de bêbada um dia no banheiro quando foi tomar banho, nem sei como não bateu a cabeça na quina do armário. Essa gurizada de hoje bebe muito, nunca vi igual. Um dia ela disse que a mãe de uma amiga tinha sugerido que ela fizesse terapia. Ela pesquisou na internet e disse que queria fazer. Até gostaria que fosse contigo, mas na época ela não tinha ainda a idade que tu atendes, então procurou outra.

Ana Cruz – Tua filha ainda está em terapia? E tu, fazes terapia?

Fernanda – Não, tirei ela porque não vi resultado. A guria continuava bebendo. E eu não preciso, tenho uma vida muito boa com o meu marido e tudo isso já passou, superamos. Claro, todo casamento tem as suas fases. E adolescente sabe como é, tá sempre agarrado no celular, e quando levanta a cabeça é só pra dar patada e jogar na cara que um dia quer sair de casa, ser livre, aquelas coisas.

Ana Cruz – Para encerrarmos, tu queres fazer mais alguma colocação?

Fernanda – Sim, a vida segue.

Eu Ana me reservo ao direito não comentar sobre o caso, pois o objetivo desta entrevista era expor aos meus leitores um relato real, e não realizar a análise dos fatos em si. E vocês, o que acharam?

Grande abraço,

Ana Cruz – psicanalista[:]

28 thoughts on “Abuso sexual infantil e a negligência da mãe: parte II

  1. Fui abusada diversas vezes por um tio na infância. Só aos 28 anos tive coragem de falar para a minha mãe porque surgiu uma conversa de que ele tinha abusado de uma prima. O que minha mãe disse? Que bom que não aconteceu nada sério. Hoje em dia mesmo sabendo de tudo ela ainda o convida para reuniões familiares, frequente a casa da minha mãe, senta a mesa e ela o serve comida. E um dia já depois de saber de tudo pediu pra eu esquentar comida pra ele e levar até a casa dele, neste dia brigamos feio e eu não fui. Sou de classe média, de uma família financeiramente estruturada. A violência infantil não escolhe classe social e a ignorância não esta apenas em mães que não estudaram. Durante a adolescência e início da fase adulta bebia bastante, tentei me matar uma vez e não conseguia acreditar no amor. É incrível como a negligência de minha mãe me magoou e me traumatizou mais do que o abuso sexual. Com o tempo, percebi que reviver a história e semear ódio contra a minha mãe não me levaria a nada. Fiz terapia, me afastei da minha mãe na medida do possível. Hoje em dia levo uma vida normal, tenho meu marido e filhos. Tento não ter raiva da minha mãe porque a raiva só me trouxe infelicidade. Mas, não posso dizer que consigo amá-la. Hoje em dia eu tenho pena dela. Uma mulher que foi incapaz de se colocar no lugar da sua filha. Que foi negligente diversas vezes. O que eu gostaria de dizer é que meninas a cicatriz é profunda mas podemos viver sim após um abuso e negligência familiar. Podemos ser felizes!

    1. Oi Andrea! Admiro tua coragem de expor algo tão íntimo e profundo, mas admiro mais ainda tua atitude ao enfrentar este trauma, fazendo terapia e seguindo a tua vida. Concordo contigo, apesar dos pesares é possível sim ser feliz! 🙂 Bjs

  2. Fico muito, muito revoltada com esse tipo de relato, pois tbm sofri abuso dos 10 aos 14 anos e minha mãe fazia de conta q não percebia. Depois qdo contei tudo, ela falou com meu pai, os abusos pararam mas ela continuou casada com ele. Tenho muita mágoa dela por causa disso até hj. Difícil de entender essa covardia e a maneira como a mãe dessa entrevista defende o marido me enoja totalmente.

  3. Sofri abuso dos 6 aos 13 anos, me dei conta que fui abusado aos 15, consegui contar para minha mãe aos 23, faço terapia, tenho problemas em me relacionar com homem e mulher, agora aos 25 fui diagnosticado com pensamentos obsessivos, tomo clomipramina 150mg todo dia malditos comprimidinhos de 25 mg, passo com psiquiatra, já passei com psicanalista mas até hoje não sei quem sou, se sou gay, hétero, homo, pan etc etc, não consigo me apaixonar, depois que faço sexo me sinto um lixo, as vezes me masturbo só para aliviar os pensamentos de sexo e paranoicos sobre minha sexualidade.
    Quando contei pra minha mãe ela não deu bola, ela diz que tenho frescuras, brigamos e ela me disse pra ir conversar com meu psicólogo amiguinho, hoje vejo ela como uma mulher imunda e negligente. não conversamos mais.
    Vejo essa Fernanda como uma negligente que transa com um cara que abusou de sua filha uma imunda com certeza.
    Senti muita raiva lendo essa entrevista

    1. Oi André! Te admiro pela coragem de contar a tua história! Entendo tua raiva e tens direito a ela. Tomo a liberdade de te dar um conselho: independente das marcas dolorosas e profundas, jamais desista de si mesmo. Grande abraço!

  4. OI Ana, triste relato, fui abusada quando adolescente, nunca falei para meus pais para não preocupá-los…
    Hoje aos 23 anos faço terapia, pois constantemente sinto-me culpada, medo, nojo, uma mesclagem de sentimentos ruins…
    Tenho aversão a toque, travo batalhas diárias para superar e não viver em torno do meu trauma…
    Muito difícil ainda mais quando há omissão dos pais.
    Abuso seja qual for poderá trazer sérias consequências para a vida adulta.

    1. Oi Rosemeire! Agradeço pela tua coragem em dividir publicamente a tua história. É algo muito sério e complexo. Concordo contigo, independente do abuso sofrido, haverá sim consequências. Grande abraço pra ti! 🙂

  5. Olá Ana… Fui abusada por meu pai até meus 11 anos. A primeira vez que tive coragem de dizer não! Ele se enfureceu e nunca mais tentou… O problema maior foi quando uns 4 anos depois quando descobri que ele fazia o mesmo com minha irmã mais nova(2anos a menos )… Ela tinha relatado tudo em um diário e colou as folhas… Achei estranho e investiguei… Então contei a minha mãe… Que nada fez, deixou por conta da justiça divina… Afinal até aquele momento ele já havia passado por 2 internações… Minha mãe cuidou dele, minha irmã sente raiva até hoje de minha atitude, pois coincidência ou não minha mãe veio a ter câncer e falecer…. E hoje, olha só que irônico, somos nós duas que cuidamos dele. Hoje tenho 31anos e 2 filhas e jamais as deixo sozinhas com o avô… E o quanto é difícil imaginar que alguém seja capaz de fazer com minhas filhas o que eles nos fizeram, meu pai com sua insanidade e minha mãe com sua incapacidade… Após o falecimento dela, uma amiga me revelou que ela não tomou nenhuma atitude por que dependia financeiramente dele e temia que devido à isso, ele ficasse com nossa guarda, o que seria um prato cheio pra um pedófilo. Essa mãe está simplesmente matando a criança… Matando a criança interior e provavelmente gerando um adulto inseguro… Muito triste… Mas muito bacana você expor essa história real, na qual tanto me identifiquei….

    1. Oi Priscila! Admiro a tua coragem de expor a tua história! Muito obrigada pelo carinho! Optei por realizar esta entrevista justamente para mostrar que a pedofilia e a negligência de familiares é algo muito sério e, infelizmente, recorrente. Enquanto o ser humano continuar acreditando que isto é algo que só acontecesse com os outros, histórias tristes como a tua e da tua irmã continuarão acontecendo. Sinceramente eu desejo que muitas mães reflitam profundamente sobre o seu papel e reajam! Pois aguardar pela ‘justiça divina’ nada mais é do que transferir a sua responsabilidade para outro. Todos devem fazer a sua parte.

  6. Oi Ana.Já fiz muitas pesquisas e sempre leio artigos sobre este assunto pois, já passei por isso. Comecei a passar por abuso aos 3 anos de idade diretamente e foi até meus 17 anos indiretamente. Sempre fui muito assediada por homens. Tinha um comportamento fora do comum por causa disso tudo que passei. Muitos adultos desconfiam das crianças pois não entende que os agressores primeiro buscam a confiança da criança e quando veem que elas estão bem envolvidas com eles, tem a total confiança é que eles partem par o objetivo deles. Quando as vítimas chegam a uma certa idade e mostram sua revolta com o que aconteceu com elas , eles culpam a adolescência. É muito revoltante esse tipo de coisa.

    1. Oi Maria! Muito corajoso e nobre da tua parte relatar a tua história. Infelizmente é assim mesmo que acontece. Sinceramente, o que me entristece, enquanto ser humano, é a descrença de quem está próximo da vítima, geralmente os demais familiares. É impressionante como as pessoas de modo geral se chocam quando este tipo de situação ocorre com os outros, e jamais admitem que poderia acontecer consigo.

  7. Gostaria de indicar o livro “Violência no cotidiano – do risco à proteção” da Editora Liber Livro, o primeiro capítulo traz um artigo, também com relatos reais, sobre a Violência intrafamiliar: um estudo sobre a conivência da mãe em um caso de abuso sexual dos filhos. É excelente!

  8. Sim Fernanda, a vida segue. E pelo que eu entendi a relação com seu marido é muito importante pra você, mas pode ter certeza que você é uma peça fundamental na vida da sua filha e a terapia poderia ajudar muito a você compreender a raiva e as atitudes dela que com certeza não são por nada, assim como compreender o peso real de o que o seu marido fez para então decidir perdoa-lo ou não pois creio que você não considerou a real gravidade do abuso cometido por ele. Você pode ajudar a vida da sua filha a seguir também e não somente a sua e a do seu marido.
    Grata por ter compartilhado esse relato Camila.

  9. Ana, a pessoa se nega a ver a realidade. Será que também foi abusada? será que foi conveniente? será que o medo incorporou a personalidade “ruim com ele pior sem ele” Nossa, esse caso poderia ser um projeto de estudo não é?

    1. Oi Raquel! Pois é, não explorei o histórico de vida da Fernanda conforme é possível visualizar na parte I, apenas a deixei livre para falar. Agora super concordo contigo, este seria um caso bem interessante para se tornar um objeto de estudo.

  10. Estou perplexa! História parecida com a do filme “Preciosa”. O que leva uma mãe a não proteger a filha? Ou a não se indignar com uma situação de abuso?

    Eu tenho uma filha que fará 19 no próximo mês e a criei sozinha. Nunca quis me casar novamente, pois sempre temi situações assim.

    1. Amiga, é muito triste mesmo. Mas a regra é clara: mãe/pai problemático tende a projetar no filho. Já me chamaram de louca quando disse que o ideal é que a terapia fosse obrigatória para todo aquele que deseja ter um filho, a fim de evitar problemas futuros… enfim.

  11. Simplesmente deprimente o caso desta mãe. Sei bem o que essa menina pode estar sentindo. Tbm fui vitima de abuso, mas por parte de um primo qdo criança.Sou borderline, Hj faço terapia e tudo mais, minha mãe n sabe,do abuso, tenho vergonha de contar. Mas carrego muito esse peso.
    Fiquei com nojo dessa mulher. Penso que tvz ela precise mais de terapia q a menina q correu para o alcool para fugir da vida q passou qdo criança.

    1. Oi Camila! Admiro tua atitude ao divulgar a tua história, muito nobre da tua parte. Sinceramente concordo contigo, esta mãe precisa tanto ou mais de terapia do que a filha. Grande abraço!

      1. Prezada Ana, sou policial civil no Rio de Janeiro e lido com a Lei Maria da Penha. Essa questão do abuso provocado por “invisibilidade” da filha/filho por parte da mãe não me é estranha. Hoje mesmo, cuido de um caso de uma filha de 16 anos que fez queixa da mãe e do padrasto por ameaça. Ouvindo atentamente, encontrei uma mãe depressiva que afastou a mãe e a filha e busca “causar castigo” a ambas; uma filha abusada por 2 padrastos diferentes aos 9 e aos 14 anos; uma avó materna que traz uma grande culpa inserida em sua existência e outras implicações da miséria humana provocada pelo olhar distante da mãe para com a filha, o que a desconstitui como pessoa digna de amor. E, não raro, me deparo com essas situações que trazem à baila várias teorias freudianas que se comprovam quando existe condição de fala e de escuta.

      2. Oi Jose Geraldo! Profissão difícil a tua, inclusive já escrevi um texto sobre o comprometimento psicoemocional de policiais civis, já leste? Caso triste, delicado e altamente complexo este que tu relataste aqui. Com certeza, há muito de Freud nestas situações reais. E infelizmente há aqueles que acreditam que seja apenas teoria, enfim..

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